Fotografar embaixo d’água é um desafio. Costumo dizer que enquanto meus colegas, fotógrafos de vida selvagem terrestre, utilizam lentes de 600 milímetros, e se postam a 200 metros de distância com uma caneca de café na mão, nós fotógrafos subaquáticos precisamos nos aproximar o máximo do animal. Chega-se ao ponto de ser inevitavelmente tocado e empurrado, às vezes por animais de 80 toneladas, como foi o caso da baleia franca que me jogou dois metros acima da superfície, brincando comigo como se fosse uma bola.

A água funciona como um filtro, tirando as cores e a nitidez da foto. Portanto, quanto menos água entre o objeto e a lente melhor. Nós utilizamos o artifício de lentes supergrande angulares, no meu caso uma lente chamada “olho de peixe”, com 180 graus de ângulo de cobertura. Ela me permite enquadrar uma baleia inteira, mesmo estando a menos de 2 metros dela, minimizando a água entre eu e o animal.

Para se aproximar de um animal selvagem subaquático é necessário se fazer a “leitura” do animal e identificar a melhor forma de conseguir uma interação. Porém, por mais que se planeje, estamos todos nas mãos da vida selvagem. Se eles não quiserem se aproximar e interagir, a foto não acontece.

Eu acredito que a foto de um animal não pode ser “roubada”, tem que ser posada, consentida. É muito importante o contato visual na fotografia que pratico.

O trabalho de um fotógrafo subaquático envolve desde a pesquisa sobre quais animais fotografar, onde, quando, logística, criação do roteiro jornalístico – geralmente feito em parceria com o editor – e, finalmente, ir a campo. Tão importante quanto ter um roteiro é saber improvisar. Como sou um amante do Jazz, adoro improvisar, e pelo menos 30% das minhas imagens não são planejadas.

Com a depredação dos oceanos, eminente extinção dos tubarões e com populações de baleias e arraias jamanta instáveis, os fotógrafos submarinos precisaram aumentar o escopo de suas ações, voltando-as para a conservação dos oceanos.

Digo o seguinte sobre ativismo e conservação: como cidadão comum e habitante do planeta Terra, ajo em nome da minha responsabilidade social. Já como fotografo subaquático, trabalho pela preservação de minha atividade. Afinal de contas, se matarem estes animais, o que eu irei fotografar?

Espero que gostem de minhas imagens, foram todas tiradas com o coração!

Daniel Botelho é um premiado fotojornalista, especializado em fotografia subaquática. Seu trabalho pode ser visto em mais de uma centena de campanhas publicitárias. Atualmente, ele contribui para publicações em mais de 20 países, entre elas, National Geographic,Time,Veja e BBC Wildlife. Preocupado com a devastação dos oceanos, Daniel tornou-se um ativista contra o massacre de baleias e tubarões nos oceanos. Sua conexão com a natureza remonta à infância, pois cresceu entre o mar e a floresta, no Rio de Janeiro. Visite o seu site pessoal no endereço danielbotelho.com

Fonte: ((o))eco