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Fábrica é acusada de poluir igarapé

15 de February de 2011 Sem Comentários

Foto tirada pelo líder comunitário de Santana mostra peixes mortos

Às margens do Igarapé do Corrêa, em Santana (Amapá) se veem as casas de famílias ribeirinhas. Porém, bem perto dali, uma fábrica do Grupo Simões vem há anos, segundo a associação comunitária local,  poluindo o corpo d’água. O Grupo é um dos maiores conglomerados empresariais da região Norte e é responsável pela produção e distribuição de refrigerantes como Coca Cola e Tuchaua.

A empresa chegou em Santana em 83. Em 95, aconteceu a primeira mortandade de peixes. De lá para cá, o fato já se repetiu mais três vezes, a mais recente em 14 de janeiro deste ano conforme relato dos próprios moradores. “A água tem odor forte, a população cava poço para beber água, mas o lençol freático está contaminado, as pessoas comem ou já comeram peixes do Igarapé do Corrêa e também devem estar contaminadas. O desastre é maior, porque este mesmo igarapé desemboca suas águas no rio Amazonas através do rio Matapi”, afirma Mário Ricardo Nascimento de Oliveira, presidente da Associação de Moradores da Vila Amazonas.

Grupo Simões é distribuidora da Coca Cola na região (foto Mario Ricardo Nascimento)

De acordo com ele, isso vem acontecendo devido aos resíduos químicos da empresa que são despejados no igarapé. “Coletamos amostras de água e de peixes”, afirma Nascimento.

A fábrica confirma que despeja efluentes no igarapé, mas informa que em 2000 colocou em funcionamento uma estação de tratamento e que direciona a água tratada a um tanque com peixes tambaquis, antes de dispensar os efluentes.

“Fazemos análises internas e externas, contratamos laboratórios. Diariamente de quatro em quatro horas monitoramos o que vai para o igarapé. Pelos dados que temos, nossos efluentes não são os causadores da mortandade”, afirma Dahlson Abreu, gerente industrial do Grupo e até o começo deste ano gerente ambiental na empresa.

Desde que os peixes passaram a morrer, Nascimento afirma que moradores do local têm chamado a atenção das autoridades. “Nunca fomos atendidos pelo poder público local, que não toma nenhuma providência no que diz respeito aos danos ambientais que esta fábrica de bebidas vem causando. O impacto é alarmante”, diz Nascimento.

Maurício Souza, diretor-presidente do Instituto de Meio Ambiente e Ordenamento Territorial do Amapá (IMAP) confirma que de fato as gestões anteriores não deram andamento nas denúncias. “De agora em diante o órgão será cada vez mais transparente e está de portas abertas para receber os comunitários. Eles podem me procurar pessoalmente”, garante.

“Queremos ser ouvidos. Sabemos o que está acontecendo e não podemos permanecer calados. Procuramos a empresa e nunca fomos recebidos. Ela nega as acusações perante a imprensa”, afima, em contraponto, o líder comunitário. A comunidade diz que nunca recebeu nenhum tipo de compensação pelos danos causados.

Abreu, do Grupo Simões, afirma que “não dá para falar em compensação quando não existe a comprovação de que nossa empresa é o agente causador do que vem ocorrendo”. “Estamos abertos para dialogar e identificar de que forma podemos colaborar para a melhoria da qualidade de vida das pessoas que ali residem”, responde a empresa, por meio de sua assessoria de comunicação.

Investigação

Foto: Maria Ricardo Nascimento

A Secretaria de Estado e Meio Ambiente do Amapá recebeu em janeiro uma denúncia dos moradores que acusam o Grupo Simões de danos ambientais ao igarapé. No mesmo mês o IMAP foi até a empresa e fez uma vistoria. “O igarapé é pequeno e vamos verificar se ele tem capacidade de receber a carga da fábrica e se autodepurar”, diz Souza.

Ele afirma que a mortandade está de fato acontecendo, mas que faltam dados técnicos para responsabilizar o Grupo Simões. “Isso pode ter como causa uma série de fatores: resíduos químicos da empresa, temperatura da água, esgoto doméstico. Vamos analisar a qualidade da água e aguardar os resultados”, afirma.

Se comprovado que os efluentes resultantes da fabricação de refrigerantes têm causado a poluição das águas do local, a empresa será autuada. “Ela terá que fazer as readequações necessárias. Também podemos entrar com medida compensatória junto às comunidades, acionar outros órgãos públicos e disponibilizar infraestrutura sanitária para aliviar a pressão sobre o igarapé”, complementa Souza.

Abreu observa que a fábrica está disposta a colaborar nas investigações sobre a mortandade.

“A maioria das famílias que morava nas proximidades foi embora por causa da poluição. Os processos são decididos entre eles e os laudos se perdem, mas não vamos desistir”, afirma Nascimento. Conforme o diretor do IMAP, na semana que vem amostras da água serão enviadas para um laboratório independente. O resultado das análises deve sair dentro de dez a 15 dias e dirá quem está com a razão.

fonte: O Eco