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Inseticida genético pode barrar dengue

25 de February de 2010 Sem Comentários

rupo de brasileiro nos EUA faz fêmeas de “Aedes” transgênicas incapazes de voar, que podem cortar ciclo da doença

Entre os mosquitos, as fêmeas costumam ser as vilãs, já que são elas que sugam sangue e transmitem doenças. Nada mais natural, portanto, que uma nova estratégia contra os insetos se dirija a elas: alterações genéticas que tornam os membros do sexo feminino incapazes de voar.

Em laboratório, a ideia está dando certo no caso do Aedes aegypti, mal-afamado transmissor do vírus da dengue, e também há planos de aplicá-la ao Culex quinquefasciatus, o pernilongo comum, que, além de sugar sangue, também pode carregar o causador da elefantíase.

O importante é que as modificações no DNA inviabilizam apenas o voo das fêmeas. Os machos que as carregam são capazes de voar normalmente, o que ajudaria a espalhar a característica por cruzamento com os mosquitos normais.

Dengue
Os resultados mais recentes com o A. aegypti estão na edição desta terça-feira (23/2) da revista científica “PNAS”, descritos por uma equipe internacional que inclui o biólogo brasileiro Osvaldo Marinotti, ex-professor da USP e hoje na Universidade da Califórnia em Irvine (EUA). Marinotti explica que a criação de fêmeas transgênicas toma partido de uma diferença natural entre os sexos.

É que certos músculos cruciais para a capacidade de voar das fêmeas dependem de uma proteína, a actina-4, cuja receita está contida num gene que é bem mais ativo nos mosquitos que são do sexo feminino.

“Os machos têm o mesmo gene, mas ele é expresso [ativado] numa intensidade muito menor. O macho tem outra actina que faz a mesma função. Não se sabe o porquê da diferença, embora se especule que ela venha da necessidade da fêmea de ter músculos mais fortes, porque suga sangue e carrega ovos, ou seja, leva muito peso”, afirma o biólogo.

Com esse dado nas mãos, os cientistas projetaram um fragmento de DNA que continha dois elementos principais. Um deles era um promotor -a região que controla quando um gene é ligado ou desligado- específico para o gene da actina-4. O outro continha a receita para a produção de uma substância tóxica. Na prática, isso significa que esse “veneno” era produzido apenas nas células dos músculos do voo que costumam conter actina-4.

O resultado eram fêmeas cujo desenvolvimento caminhava normalmente até a fase de larva, mas que, ao se tornar adultas, eram incapazes de usar suas asas. Já os machos geneticamente alterados ainda conseguiam voar. Na natureza, as fêmeas modificadas poderiam até morrer afogadas antes de deixar a água, onde passam a fase larval, mas em laboratório elas recebem um antídoto que lhes permite ter asas normais.

“É uma estratégia muito promissora”, afirma Mauro Toledo Marrelli, pesquisador da Faculdade de Saúde Pública da USP. “Estamos tentando usar o mesmo sistema com o Culex quinquefasciatus, embora ainda não tenhamos criado nenhuma linhagem de mosquitos. O Culex é mais difícil porque, ao contrário do Aedes, que põe seus ovos individualmente, os dele vêm todos juntos, e é preciso separá-los em laboratório. Nisso, você acaba perdendo muitos ovos”, diz Marrelli.

Inseticida
O pesquisador da USP compara a estratégia a um inseticida, porque ela destrói apenas as primeiras gerações de mosquitos que cruzarem com os animais modificados. “Mais tarde, esse gene vai desaparecer da população, e você vai precisar soltar mais animais modificados”, diz Marinotti. “Mas, do ponto de vista da regulação, quando chegarmos a testes de campo, isso é uma vantagem. Você não vai inserir perpetuamente um gene modificado na população, o que diminui as preocupações com segurança.”

Testes em grandes gaiolas, uma situação considerada “semisselvagem”, já estão sendo feitos para avaliar a viabilidade do plano, afirma Marinotti.

Folha de São Paulo