Já passou pela sua cabeça passar dias em mar aberto, num barco catamarã, sem o mínimo conforto e expostos a temperaturas, que vão do frio da Antártica ao calor do Caribe? Pois esta é a rotina e o estilo de vida do santista Beto Pandiani. Depois de seis expedições  pelo mundo, agora ele planeja para este ano uma viagem da Cidade do Cabo, na África do Sul, com destino a Santos, em sua jangada hi-tech.

A escolha do ponto final da próxima viagem não foi por acaso. Apesar de ter nascido na Cidade, Pandiani se mudou para a capital aos 9 anos. Lá,começou a atuar como empresário, mas a paixão pelo mar passou a ocupar muito espaço em sua vida. Por isso, em 1993, o velejador largou a sociedade de casas noturnas paulistas e adotou a vela como principal ocupação.

O percurso da nova expedição, de cerca de 7 mil quilômetros, deve ser percorrido em 25  dias, sem paradas em terra. Vale lembrar que esta é a distância linear que os ventos  mudam a direção do barco durante a viagem. Por isso, o trajeto se torna cerca de 25% maior.

A embarcação de carbono, de aproximadamente 150 quilos, está em construção na Alemanha. O planejamento, que é o forte do velejador, esta sendo executado há mais de um ano.

“Gosto de velejar nesse tipo de barco cataramã. É muito emocionante e foi exigido que a gente aprimorasse cada vez mais no nosso planejamento. Tudo é calculado e estimado”, afirma o velejador.

A chegada em Santos está prevista para acontecer entre novembro e dezembro próximos. A ideia é trazer uma réplica da taça da Copa do Mundo da África para o Brasil. A peça será doada para o Museu Pelé, que está sendo construído no Centro da cidade.

Além desta viagem, Pandiani já iniciou o planejamento de outra grande expedição, desta vez pelo Ártico. Ela deve acontecer em 2014 e só será possível por conta do aquecimento global.

Isto porque o trajeto de Vancouver, no Canadá, até a Groenlândia vai acontecer devido ao derretimento das calotas polares. Esta viagem vai ser tornar um filme e uma série  para a TV com o tema aquecimento global. “É um pouco surreal vem um barco como o catamarã cheio de neve. Normalmente, eles são vistos em hotéis tropicais e resorts, no Caribe, ou nas competições fechadas”, relembra.

O custo de uma expedição pode chegar a R$ 750 mil. O valor é pago por patrocinadores e inclui não só as despesas da viagem, como também as ações que acontecem depois.

Nas viagens, o velejador conta com uma estrutura de comunicação.  Um notebook à prova d’água e telefone via satélite são os principais. Além disso, acessórios de camping, com materiais leves e compactos também são utilizados. Comidas desidratadas são as mais usadas, assim como barras de cereais e proteínas.

Cada aventura gera um livro. No total, seis já foram lançados, sendo cinco fotográficos e um de histórias. O mais recente sua autobiografia, chamada O Mar é a minha Terra, publicado em 2009 pela Editora Grão. Este livro conta o diário de bordo da Travessia do Pacífico, que foi a viagem mais longa de sua carreira. Passagens de outras expedições são lembradas, assim como sua trajetória pessoal.

VIDA NO MAR

“Quando dizem que sou louco por passar mais de 200 dias no mar, digo que maluco é quem mora em São Paulo”, afirma Beto Pandiani. Para ele, o corpo humano não precisa do conforto da cidade grande.

Como os barcos não têm cabine, os velejadores ficam expostos à umidade e ao calor do sol. Mas se engana quem pensa que eles se sentem mal ou ficam doentes por conta disso. Nenhum dos velejadores teve problemas de saúde durante as expedições.

Além do mundo moderno da Capital, o velejador também abdicou da convivência familiar e do contato direto com os amigos. Hoje ele é separado e não tem filhos, mas cinco das suas viagens foram feitas enquanto ele ainda estava casado: “Fazíamos  um planejamento e ela (ex-esposa) ia me visitar nas escalas. Passávamos pouco tempo juntos, entre dois dias e uma semana”, relembra.

Para ele, este tempo de solidão o tornou mais reflexivo e apto a decidir o que realmente lhe faz bem e é necessário em sua vida. Isto tudo aconteceu por conta da ligação do corpo humano com a natureza e a distância da sociedade de consumo.

“Com o tempo, você deixa de ter saudade da vida confortável, em troca de uma vida rústica. Mas ela dá tantas outras oportunidades que você jamais teria na vida da cidade. Ficar bem consigo, junto à natureza e vivendo uma vida mais saudável e sem hábitos de consumo desnecessários apagam qualquer distância”.