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Clima e produção de açúcar e etanol no Brasil: os 7 fatores que definem a safra

Entenda como clima e produção de açúcar e etanol no Brasil se conectam: El Niño, chuvas e safra de cana. Leia e acompanhe a agroenergia.

RPRedação Planeta Ecoturismo29 de setembro de 2026 · 6 min de leitura
Clima e produção de açúcar e etanol no Brasil: os 7 fatores que definem a safra

A safra de cana-de-açúcar do centro-sul do Brasil entrou na reta final sob uma inversão rara de lógica econômica. Mesmo com os preços do açúcar em alta de mais de 21% em agosto, as usinas não estão conseguindo migrar sua produção para o adoçante na velocidade que o mercado esperaria. O motivo não está nas bolsas de Nova York ou Londres, mas no céu: o clima e a produção de açúcar e etanol no Brasil voltaram a ser ditados pelas chuvas, e não pelas cotações.

O fenômeno El Niño, em sua fase intensa, trouxe um inverno atipicamente chuvoso para o cinturão açucareiro. Segundo a Universidade de São Paulo, algumas regiões registraram o inverno mais chuvoso em mais de 100 anos, atrasando a colheita e alterando a qualidade da matéria-prima. O resultado é uma safra que entrega menos sacarose por tonelada e empurra as usinas para o etanol, mesmo quando o açúcar paga mais. É um retrato de como eventos climáticos extremos estão redesenhando a lógica do setor sucroalcooleiro e, por consequência, a matriz energética renovável do país.

Por que o clima virou o fator número 1 na produção de açúcar e etanol

Tradicionalmente, o mix de produção das usinas flex brasileiras segue um cálculo simples: quando o açúcar vale mais que o etanol no mercado internacional, destina-se mais cana ao adoçante; quando o etanol compensa, o fluxo se inverte. Esse mecanismo de arbitragem funcionou por anos como um amortecedor de volatilidade. Mas o El Niño e a safra de cana-de-açúcar de 2023/2024 expuseram o limite dessa lógica.

Com a cana mais úmida, a concentração de sacarose cai, e o caldo rende menos açúcar recuperável. Ao mesmo tempo, essa mesma cana diluída continua viável para fermentação e destilação, o que torna o etanol a saída técnica natural. O impacto das chuvas na produção de açúcar, portanto, não é apenas de calendário: é de qualidade, de rendimento industrial e de composição final do mix.

Para o setor sucroalcooleiro e o clima, a equação ficou mais complexa. Não basta olhar para o preço: é preciso olhar para o teor de sacarose, para a umidade do solo, para a janela de colheita. E, como consequência, a matriz energética renovável etanol recebe uma oferta instável, que pressiona preços e pode afetar a competitividade do biocombustível frente à gasolina.

1. El Niño e a safra de cana-açúcar: chuvas fora de época

O El Niño altera o regime de chuvas em duas frentes no Brasil. No Centro-Sul, tende a concentrar precipitações na primavera e no inverno, justamente quando a colheita deveria avançar em ritmo seco. No Nordeste, pode intensificar secas ou deslocar chuvas para fora da janela ideal de plantio e crescimento.

  • Excesso de chuva na colheita: reduz o teor de sacarose, aumenta as perdas de açúcar no campo e na indústria, e obriga as usinas a processar cana com teor de água acima do ideal.
  • Seca prolongada no crescimento: reduz a tonelagem por hectare, afeta a brotação e compromete a produtividade agrícola da safra seguinte.
  • Exemplo da safra 2023/2024: atrasos na colheita e queda de produtividade em algumas regiões do cinturão açucareiro, com inverno mais chuvoso em mais de 100 anos, segundo a USP.

2. Impacto das chuvas na produção de açúcar: qualidade e rendimento

Quando a chuva cai em cima da colheita, o caldo da cana dilui. A concentração de sacarose cai, e o custo industrial sobe, porque é preciso evaporar mais água para chegar ao açúcar cristal. Há também aumento de impurezas minerais e orgânicas, que exigem mais insumos químicos e energia no processamento.

O efeito final aparece na composição açúcar vs etanol: menos açúcar recuperável por tonelada, mais volume direcionado à fermentação. Até o início de julho, as usinas haviam utilizado apenas 42,5% da cana para a produção de açúcar, um indicativo claro dessa pressão climática.

3. Composição açúcar vs etanol: a decisão que o clima força

As usinas flex foram projetadas para escolher o mix conforme o preço. Mas o clima limita essa escolha. Cana com baixo teor de sacarose favorece o etanol, mas pode inviabilizar o açúcar, porque o rendimento industrial não fecha a conta.

Segundo Fábio Meneghin, sócio da consultoria Veeries, a diferença de preço está atualmente em cerca de 20% a favor do açúcar, o que criaria um incentivo claro para produzir o adoçante. A proporção de açúcar só não está aumentando por causa do clima. Marcelo Bonifácio Filho, analista de açúcar da StoneX, resume: no fim das contas, não se está mais olhando para os preços de mercado para estimar a composição da produção na reta final da safra. O foco é o clima.

Cada ponto percentual a mais na composição voltada para o açúcar equivale a cerca de 750 mil toneladas adicionais. Com a cana úmida, esse ponto percentual fica mais difícil de conquistar, e a oferta global de açúcar sente.

4. Matriz energética renovável e etanol: o clima como gargalo

O Brasil depende do etanol para suas metas de descarbonização. Se a safra fraca por clima reduz a oferta, o preço do biocombustível sobe e sua competitividade nos postos cai. O efeito cascata é conhecido: etanol mais caro desloca consumo para a gasolina, aumentando emissões no transporte.

A StoneX já reduziu sua expectativa para a produção de açúcar no centro-sul do Brasil para menos das 40 milhões de toneladas previstas no início da safra, com possibilidade de não ultrapassar 38 milhões. Novas revisões para baixo podem ocorrer devido à previsão de bom volume de chuvas para o centro-sul no início de outubro. Para a matriz energética renovável etanol, isso significa menos flexibilidade e mais pressão sobre políticas de descarbonização.

5. O que esperar para as próximas safras: cenários e tendências

As projeções de El Niño e La Niña para os próximos anos indicam alternância entre extremos, o que mantém o setor em alerta. A tendência é de aumento de custos, necessidade de adaptação e novas rotas tecnológicas.

Na economia do setor, o cenário favorece fusões, fechamento de usinas menos capitalizadas e migração para modelos mais integrados. A conclusão é clara: clima, e não preço, será o fator determinante para a produção de açúcar nas usinas brasileiras.

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Redação Planeta Ecoturismo

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Perguntas frequentes

Como o El Niño afeta a safra de cana-açúcar no Brasil?

O El Niño altera o regime de chuvas, causando secas em algumas regiões e excesso de chuva em outras. Isso reduz a produtividade e a qualidade da cana, impactando a produção de açúcar e etanol.

Qual o impacto das chuvas na produção de açúcar?

Chuvas na colheita diluem o caldo, reduzem o ATR e aumentam as perdas de sacarose, resultando em menor rendimento industrial e mais custos para as usinas.

O que é mais afetado pelo clima: açúcar ou etanol?

Ambos, mas o etanol pode absorver cana de pior qualidade, enquanto o açúcar exige matéria-prima com alto teor de sacarose. O clima define qual produto é viável em cada safra.

Como as mudanças climáticas impactam a matriz energética renovável?

Eventos extremos reduzem a oferta de etanol, pressionam preços e podem forçar o uso de combustíveis fósseis, atrasando metas de descarbonização.

O que o setor sucroalcooleiro pode fazer para se adaptar ao clima?

Investir em irrigação, variedades resistentes, monitoramento climático, seguros e diversificação energética, além de práticas agrícolas regenerativas.

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