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Lençóis Maranhenses: o deserto de água doce que virou Patrimônio da Humanidade

Dunas brancas, lagoas de água doce e o novo título da UNESCO: conheça os Lençóis Maranhenses, quando ir, como visitar e o desafio do overturismo.

RPRedação Planeta Ecoturismo12 de julho de 2026 · 6 min de leitura
Lençóis Maranhenses: o deserto de água doce que virou Patrimônio da Humanidade

Imagine um deserto que, uma vez por ano, se enche de água doce. Dunas brancas que se estendem até o horizonte, pontuadas por milhares de lagoas de água transparente e morna, onde dá para nadar cercado de areia por todos os lados. Os Lençóis Maranhenses são exatamente essa contradição bonita — e, desde julho de 2024, carregam um novo título: são Patrimônio Mundial Natural da UNESCO, o mais recente do Brasil. Com o reconhecimento vieram os holofotes. E, com os holofotes, um desafio que o parque terá de aprender a administrar: o próprio sucesso.

Um deserto que não é um deserto

A primeira coisa que um bom guia explica por lá é que "deserto" é apelido, não classificação técnica. Um deserto de verdade é definido pela escassez de chuva. Os Lençóis, ao contrário, recebem cerca de 1.200 milímetros de chuva por ano — volume que faria inveja a muita região semiárida. O que engana o olhar é a areia: são dunas de areia branca e fina, movidas pelo vento, que podem chegar a cerca de 40 metros de altura e cobrem um campo de dunas de aproximadamente 90 mil hectares.

O espetáculo nasce do encontro entre essa areia e a chuva. Entre janeiro e maio cai a maior parte da água do ano. Como abaixo das dunas existe uma camada impermeável, a chuva se acumula nas depressões entre os montes de areia e forma lagoas sazonais — algumas com até 100 metros de comprimento e 3 metros de profundidade. No auge da cheia, essas lagoas chegam a ocupar cerca de 41% da área do parque. Depois, sob o sol forte, evaporam aos poucos, e a paisagem se transforma de novo. É por isso que os Lençóis nunca são iguais de um mês para o outro.

Por que virou Patrimônio da Humanidade

A inscrição na Lista do Patrimônio Mundial aconteceu em 26 de julho de 2024, durante a 46ª sessão do Comitê do Patrimônio Mundial, realizada em Nova Délhi, na Índia. O parque entrou na lista sob dois critérios naturais: o de conter fenômenos naturais superlativos e beleza estética excepcional, e o de ser um exemplo notável de processos geológicos em curso — no caso, o maior campo de dunas ativas da América do Sul.

Com isso, o Brasil passou a somar 24 sítios reconhecidos pela UNESCO, dos quais oito são de patrimônio natural. Na ocasião, a diretora-geral da UNESCO, Audrey Azoulay, afirmou que a paisagem passaria a contar com "o mais alto nível de proteção internacional". Do lado brasileiro, o então ministro do Turismo, Celso Sabino, avaliou que o título "aumentará significativamente a visibilidade global" do parque — uma previsão que, como veremos, se cumpriu quase rápido demais.

O parque em números

O Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses foi criado pelo Decreto nº 86.060, de 2 de junho de 1981. O decreto original definia 155 mil hectares; hoje, o ICMBio informa uma área de 156.608,16 hectares — as pequenas diferenças de número entre fontes vêm de remedições ao longo das décadas. Ao redor do parque existe ainda uma extensa zona de amortecimento, estimada em 268 mil hectares, dominada por vegetação de Caatinga e Cerrado, que funciona como um cinturão de proteção.

Um detalhe pouco conhecido: no meio das dunas há oásis habitados. Comunidades tradicionais vivem em pontos como Queimada dos Britos e Baixa Grande, cercadas de areia, tirando o sustento da pesca, da pequena agricultura e, cada vez mais, do turismo. São vidas que se organizam em torno do ciclo das águas há gerações — parte viva e humana de uma paisagem que muita gente imagina vazia.

Quando e como ir

A pergunta que todo viajante faz é sobre a época. As lagoas dependem da chuva, então não adianta ir na seca esperando encontrá-las cheias. A melhor janela vai de junho a setembro, quando os reservatórios já se encheram e o sol domina o céu. Julho, no meio das férias, é considerado o mês mais seguro — lagoas cheias na maioria das bases e clima estável.

A principal porta de entrada é Barreirinhas, a cerca de 254 quilômetros (aproximadamente 4 horas de carro) da capital, São Luís. De lá saem os passeios de 4x4 até os circuitos de lagoas mais famosos. Mas Barreirinhas não é a única base: quem procura menos gente encontra ângulos diferentes do mesmo parque em Santo Amaro, em Atins e em Primeira Cruz — cada uma com seu ritmo e seu acesso. A dica de quem conhece é fugir do horário de pico nas lagoas mais visitadas e reservar o fim de tarde, quando a luz baixa transforma a areia em ouro.

O sucesso que virou desafio

Aqui entra a parte que um portal de ecoturismo não pode omitir. O reconhecimento internacional turbinou uma curva de visitação que já vinha subindo forte. Em 2024, o parque recebeu 440.028 visitantes, alta de cerca de 8% sobre os 408.235 de 2023 — números que o colocaram entre os parques nacionais mais visitados do Brasil. Para dimensionar o salto: em relação a 2019, antes da pandemia, o crescimento passou de 190%. Em poucos anos, um destino relativamente reservado virou fenômeno de massa.

Toda essa gente pisando em um ambiente frágil cobra seu preço. Estudos de monitoramento da visitação no parque apontam impactos como compactação do solo, erosão de trilhas, perturbação da fauna e acúmulo de lixo em áreas de maior fluxo. É a tensão clássica do turismo de natureza: a mesma beleza que atrai é a que sofre com o excesso de quem vem admirá-la.

A resposta em construção tem nome técnico: o ICMBio vem desenvolvendo o chamado "Número Balizador da Visitação", uma ferramenta para definir quantas pessoas o parque comportaria por dia sem se degradar. Até o momento, trata-se de um estudo — nenhum limite diário oficial foi implantado —, mas a simples discussão já sinaliza uma mudança de mentalidade: a de que destinos naturais não são infinitos.

Visitar com consciência

Nada disso é motivo para riscar os Lençóis da lista. É motivo para visitá-los melhor. Contratar guias e receptivos locais, respeitar a sinalização, não deixar rastro, evitar os horários e pontos mais lotados e distribuir a viagem por bases menos concorridas são atitudes que aliviam a pressão sobre o parque e ainda rendem uma experiência mais autêntica. O maior campo de dunas da América do Sul sobreviveu a milênios de vento e chuva. Cabe a esta geração de viajantes garantir que ele sobreviva também à própria fama.

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RP
Redação Planeta Ecoturismo

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