Passeio do Macuco tem novo concessionário com ágio de 115% — e ingresso prometido 20% mais barato
Consórcio arremata a concessão do Passeio do Macuco por R$ 79,9 milhões, com ágio de 115%. Contrato prevê R$ 85 milhões e ingresso 20% mais barato.
Um dos passeios mais procurados do Parque Nacional do Iguaçu mudou de mãos. O consórcio Novo PNI Macuco — formado pela Ilha do Sol Agência de Viagens, pela Cataratas do Iguaçu e pela Construcap — venceu o leilão da concessão do Passeio do Macuco, realizado na quarta-feira, 12, na sede da B3, em São Paulo.
O grupo ofereceu R$ 79,9 milhões pela outorga fixa. O valor mínimo previsto no edital era de R$ 37,2 milhões, o que significa um ágio de 115% — o dobro do preço pedido.
O projeto foi estruturado em conjunto pelo BNDES e pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), e prevê investimentos de R$ 85 milhões ao longo de 15 anos.
O que muda para quem visita
Ao contrário do que a palavra concessão costuma sugerir, o contrato traz obrigações voltadas ao acesso — e é aí que está a parte mais relevante para o visitante:
- redução de mais de 20% no preço do ingresso;
- descontos para moradores das áreas do entorno;
- isenção para pessoas em situação de vulnerabilidade inscritas no Cadastro Único (CadÚnico).
O investimento inicial estimado é de R$ 44,7 milhões, destinados à reestruturação da infraestrutura e à modernização da frota usada no transporte dos visitantes.
Estão previstas ainda novas trilhas e ciclovias e a ampliação do centro de apoio ao visitante, que deve ganhar sala expositiva de interpretação ambiental, área de alimentação, sanitários acessíveis, espaço de educação ambiental, área de descanso e sinalização inclusiva. As intervenções precisam respeitar a paisagem e as diretrizes estabelecidas para o parque.
O que a concessionária vai operar
A nova concessionária fica responsável pelo passeio terrestre e pelas atividades de barco nas corredeiras do Rio Iguaçu. O contrato também abrange serviços de rafting e cachoeirismo.
Criado em 1980, o Passeio do Macuco recebeu mais de 370 mil visitantes em 2025. Localizado às margens do Rio Iguaçu, dentro do parque, é a principal porta de entrada para quem quer ver as Cataratas de baixo, a partir da água — experiência distinta da passarela, que oferece a vista de cima.
Além das melhorias de visitação, o contrato estabelece ações de conservação, proteção, gestão e monitoramento da unidade de conservação, incluindo projetos de educação ambiental, manejo de espécies e melhorias voltadas ao atendimento da comunidade local.
Por que o ágio de 115% é o número a observar
Um ágio dessa magnitude tem duas leituras, e vale conhecer as duas antes de decidir se é boa notícia.
A leitura otimista: o mercado enxerga o ativo como muito mais valioso do que o edital precificou. Isso indica confiança no fluxo de visitantes do Iguaçu, que vem batendo recordes, e valida a tese de que ecoturismo bem estruturado se sustenta economicamente. Dinheiro de outorga entra no sistema de conservação; investimento privado libera orçamento público para outras unidades que não têm apelo comercial nenhum.
A leitura cautelosa: quem paga o dobro do mínimo precisa recuperar esse valor em 15 anos. Como o contrato limita o preço do ingresso — que deve cair mais de 20% —, a conta tende a fechar por volume ou por receita acessória: mais visitantes por dia, mais serviços vendidos à parte, mais operação em horários ampliados.
Em unidade de conservação, volume não é uma variável neutra. Capacidade de carga existe por uma razão ecológica, não comercial. O ponto de atenção nos próximos anos não é o preço do ingresso — é se o número de pessoas por dia nas corredeiras vai continuar dentro do limite que o plano de manejo estabelece, e quem vai fiscalizar isso.
O modelo em contexto
O Iguaçu é hoje o caso mais consolidado de concessão em parque nacional no Brasil, e serve de vitrine para o modelo. As críticas ao formato costumam se concentrar em dois pontos: o risco de o parque se organizar em torno do que dá receita, e a preocupação com trabalhadores e operadores locais que já atuavam na área.
As respostas para essas questões não estão no resultado do leilão — estão na execução. Um contrato de 15 anos se avalia pelo que é entregue no ano três, no ano sete e no ano doze, e pela consistência da fiscalização do ICMBio ao longo de todo o período.
Por ora, o que existe é um compromisso contratual bem definido: R$ 85 milhões, ingresso mais barato, isenção para o CadÚnico e obrigações de conservação escritas. É mais do que promessa de campanha e menos do que resultado. A hora de cobrar é quando a primeira etapa de obras vencer o prazo.
O que é o Passeio do Macuco, na prática
Para quem nunca foi, vale situar o que exatamente mudou de operador.
O Macuco é a experiência de contato direto com o rio dentro do Parque Nacional do Iguaçu. O trajeto combina um deslocamento terrestre por dentro da mata — em veículos abertos, com paradas interpretativas ao longo do caminho — e a descida até o Rio Iguaçu, de onde partem os botes que sobem as corredeiras até a base das quedas.
É o passeio que molha. E é uma proposta diferente da que a maioria dos visitantes conhece: as passarelas oferecem a vista panorâmica, de cima e de longe; o Macuco entrega escala e barulho, de baixo e de perto. Muita gente faz os dois no mesmo dia, e são complementares.
A inclusão de rafting e cachoeirismo no escopo da concessão indica a direção pretendida — ampliar a oferta de atividades de aventura dentro da unidade, em vez de manter um único produto.
O que acontece até a transição
Contrato assinado não significa mudança imediata na bilheteria. Concessões desse porte preveem um período de transição entre o operador atual e o novo, com prazos definidos para assunção da operação, transferência de responsabilidades e início das obras.
Na prática, para quem planeja visitar Foz do Iguaçu nos próximos meses, três recomendações se mantêm:
- compre com antecedência em alta temporada — o parque opera com controle de fluxo, e o Macuco tem capacidade limitada por horário;
- confira o canal oficial de venda antes de fechar com intermediário, especialmente em período de troca de operador, quando informação desencontrada circula mais;
- reserve o dia inteiro se pretende combinar passarelas e Macuco; correr entre os dois estraga os dois.
As condições anunciadas — desconto para moradores do entorno e isenção via CadÚnico — passam a valer conforme o cronograma contratual, não a partir do resultado do leilão.
Um recado para outras unidades
O Iguaçu é atípico. São mais de 370 mil visitantes por ano só nesse passeio, num parque que figura entre os mais visitados do país, com aeroporto internacional a poucos quilômetros e demanda garantida.
Quase nenhuma outra unidade de conservação brasileira tem esse perfil. Por isso o ágio de 115% não deve ser lido como sinal de que qualquer parque atrairá investimento privado nessa proporção — ele é, antes de tudo, uma medida de quanto o Iguaçu é excepcional.
O valor do caso para o resto do sistema é outro, e é real: ele demonstra que obrigações sociais explícitas em contrato — teto de preço, isenção para vulneráveis, desconto para vizinhos — não afugentam investidor. Esse é um argumento que a discussão sobre concessões em áreas protegidas costumava não ter, e agora tem.
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Perguntas frequentes
Quem venceu o leilão do Passeio do Macuco?
O consórcio Novo PNI Macuco, formado pela Ilha do Sol Agência de Viagens, pela Cataratas do Iguaçu e pela Construcap, com oferta de R$ 79,9 milhões pela outorga fixa.
O ingresso vai ficar mais barato?
O contrato prevê redução de mais de 20% no preço do ingresso, além de descontos para moradores do entorno e isenção para pessoas inscritas no CadÚnico.
Quanto tempo dura a concessão?
Quinze anos, com investimentos previstos de R$ 85 milhões ao longo do período e investimento inicial estimado em R$ 44,7 milhões.
O que está incluído na concessão além do passeio de barco?
O passeio terrestre, as atividades de barco nas corredeiras do Rio Iguaçu, serviços de rafting e cachoeirismo, além de novas trilhas, ciclovias e a ampliação do centro de apoio ao visitante.