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Petróleo a 175 km do Oiapoque: o que a descoberta na Foz do Amazonas coloca em jogo

Petrobras achou indícios de petróleo no poço Morpho, a 175 km do Amapá. A menos de 40 km fica um sistema recifal de 9,5 mil km² com menos de 5% estudado.

RPRedação Planeta Ecoturismo16 de agosto de 2026 · 5 min de leitura
Petróleo a 175 km do Oiapoque: o que a descoberta na Foz do Amazonas coloca em jogo

A Petrobras anunciou na sexta-feira, 14 de agosto, a identificação de indícios de hidrocarbonetos durante a perfuração de um poço exploratório na Bacia da Foz do Amazonas, no litoral do Amapá.

O poço se chama Morpho, código 1-BRSA-1405-APS, e fica no bloco FZA-M-59, a cerca de 175 quilômetros da costa, na altura do Oiapoque, sob uma lâmina d'água de 2.886 metros. A presença de hidrocarbonetos foi constatada por perfis elétricos e por indicativos observados em amostras de rocha.

É importante dizer com precisão o que isso significa, porque a manchete circula sempre mais rápido que a ressalva: encontrar indícios é a fase inicial da prospecção. A partir daqui, a estatal precisa fazer novos estudos para medir o tamanho da reserva e avaliar se a extração é economicamente viável. Ainda não existe reserva anunciada, e muito menos produção.

Treze anos até a primeira broca

O bloco foi arrematado em leilão em 2013, com 100% de participação da Petrobras. Entre a compra e a perfuração, passaram-se mais de dez anos de disputa administrativa.

Os pedidos de licença foram negados sucessivamente. Um parecer técnico do Ibama de abril de 2023 descrevia a área como uma bacia sedimentar de alta sensibilidade ambiental, com pouco conhecimento sobre fenômenos hidrodinâmicos e biodiversidade ainda insuficientemente conhecida. Em maio daquele ano, a licença foi negada.

A autorização acabou saindo em outubro de 2025. A perfuração começou no início de 2026, e logo nas primeiras semanas houve um incidente: o vazamento de cerca de 15 mil litros de fluido de perfuração. O Ibama aplicou multa de 2,5 milhões de reais e a ANP determinou novas medidas.

O plano da companhia para a região é grande. Estão previstos investimentos da ordem de 3,1 bilhões de dólares até 2028, com a perfuração de 16 poços.

O vizinho de 9,5 mil quilômetros quadrados

O que torna essa área diferente de outras fronteiras exploratórias não é a profundidade nem a distância da costa. É o que existe ao lado.

O Sistema Recifal Amazônico ocupa uma área estimada em 9,5 mil quilômetros quadrados e funciona como corredor de biodiversidade entre o Atlântico e o Caribe. Ele fica a menos de 40 quilômetros do bloco FZA-M-59.

E aqui está o número que mais deveria pesar em qualquer decisão sobre a região: menos de 5% desse ecossistema foi estudado em detalhe. Pesquisadores apontam que dados básicos, como informações detalhadas de batimetria e padrões de correntes, além da abundância relativa de peixes e organismos bentônicos, ainda são escassos.

Não é desleixo científico. É condição de campo. Bianca Bentes, da Universidade Federal do Pará, resume o problema: "Essa área é de difícil acesso, com correntes muito fortes e navegabilidade complicada".

O que vive ali

O que já foi documentado basta para tornar a discussão séria.

Eduardo Tavares Paes, doutor em oceanografia da Universidade Federal Rural da Amazônia, descreve o lugar assim: "O ambiente recifal abriga um conjunto enorme de organismos, com vastos campos de rodolitos, estrelas-do-mar, algas calcárias, corais e imensos jardins de esponjas centenárias".

Rodolitos são estruturas calcárias recobertas por algas vivas, e formam a base de boa parte desse sistema. Ao lado deles aparecem esponjas de séculos de idade, corais, estrelas-do-mar e algas calcárias.

O valor não é apenas biológico. O sistema sustenta a pesca artesanal regional, com destaque para o pargo, e mantém interdependência direta com os manguezais da costa: espécies nascem no mangue e passam a viver depois nos recifes. É o que os pesquisadores chamam de meta-ecossistema, um conjunto que só funciona interligado.

O debate científico existe, e é honesto explicitá-lo

Seria desonesto apresentar a comunidade científica como unânime em todos os pontos, porque ela não é.

Em 2022, 21 cientistas publicaram na revista Frontiers um artigo intitulado "O Grande Sistema Recifal da Amazônia: um Fato", confirmando a existência e a importância ecológica do sistema. Do outro lado, o geólogo Alberto Figueiredo Jr., da Universidade Federal Fluminense, argumenta desde 2018 que os recifes mesofóticos situados entre 80 e 150 metros de profundidade não contêm corais vivos formadores de recife.

José Eduardo Martinelli Filho, da UFPA, oferece a leitura que concilia os dois lados sem diluir o problema: os rodolitos, com algas vivas na superfície, são estruturas ecologicamente importantes independentemente da presença de corais verdadeiros. A discussão sobre a nomenclatura não altera o que está vivo ali.

O consenso, entre quem discorda sobre a composição, é sobre o outro ponto: o conhecimento disponível é insuficiente diante do risco assumido.

Por que a corrente importa tanto

Um vazamento na Foz do Amazonas não se comporta como um vazamento em qualquer outro lugar do litoral brasileiro.

Uma simulação conduzida pelo Greenpeace em 2024, com sete boias de GPS liberadas na região, mostrou o que as correntes locais são capazes de fazer. Duas boias atingiram a costa brasileira em 24 horas. Cinco alcançaram águas internacionais em 16 horas, e uma delas chegou até a Flórida.

Some a isso as macromarés da região, que no Pará e no Amapá podem ultrapassar cinco metros. A combinação de correntes fortes com amplitude de maré elevada é justamente a que empurra qualquer material derramado em direção às zonas costeiras, atingindo áreas de pesca artesanal, manguezais e, potencialmente, países vizinhos.

Em outras palavras: a distância de 175 quilômetros da costa oferece menos proteção do que parece.

O que observar daqui para frente

O anúncio de sexta-feira abre uma fase de estudos, não de exploração comercial. É nesse intervalo que as decisões relevantes costumam ser tomadas, longe do noticiário.

Três coisas merecem acompanhamento. A primeira é o resultado da avaliação da reserva, que definirá se o interesse econômico na área cresce ou arrefece. A segunda é o cumprimento das condicionantes ambientais depois do incidente do início do ano, especialmente as medidas determinadas pela ANP. A terceira, e talvez a mais importante no longo prazo, é se o esforço de pesquisa sobre o sistema recifal vai acompanhar o esforço de perfuração.

Hoje, a assimetria é grande: bilhões de dólares previstos para perfurar 16 poços, e menos de 5% de um ecossistema de 9,5 mil quilômetros quadrados estudado em detalhe. Qualquer avaliação séria de risco depende de reduzir essa distância antes, e não depois.

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RP
Redação Planeta Ecoturismo

Planeta Ecoturismo — jornalismo de ecoturismo e sustentabilidade, com curadoria e revisão humana.

Perguntas frequentes

A Petrobras encontrou petróleo na Foz do Amazonas?

Foram identificados indícios de hidrocarbonetos no poço Morpho, por meio de perfis elétricos e amostras de rocha. É a fase inicial da prospecção: ainda são necessários estudos para medir a reserva e avaliar a viabilidade econômica da extração.

Onde fica o poço Morpho?

No bloco FZA-M-59, na Bacia da Foz do Amazonas, a cerca de 175 km da costa do Amapá, na altura do Oiapoque, sob lâmina d'água de 2.886 metros.

Qual o risco para os recifes da Amazônia?

O Sistema Recifal Amazônico tem cerca de 9,5 mil km² e fica a menos de 40 km do bloco. Menos de 5% dele foi estudado em detalhe, e simulações mostram que as correntes locais podem levar material derramado à costa brasileira em 24 horas.

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