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Por que os grandes congressos de turismo importam — e como o setor caminha para a sustentabilidade

O CIHAT, da ABRESI e CNTur, mostra por que congressos setoriais decidem o futuro do turismo brasileiro — e como a agenda sustentável virou régua.

RPRedação Planeta Ecoturismo18 de junho de 2026 · 6 min de leitura
Por que os grandes congressos de turismo importam — e como o setor caminha para a sustentabilidade

A cada ano, milhares de pessoas que vivem de receber, alimentar e transportar visitantes deixam seus balcões, cozinhas e recepções para sentar na mesma plateia. Não vão atrás de glamour: vão decidir o que será do próprio ofício. É nesse tipo de encontro — o congresso setorial — que o turismo brasileiro para de ser soma de negócios isolados e passa a se reconhecer como uma cadeia única, com peso econômico, voz política e, cada vez mais, responsabilidade ambiental.

O Congresso Internacional de Gastronomia, Hospitalidade e Turismo, o CIHAT, é um desses pontos de convergência. Ao chegar à sua 28ª edição, ele já não é novidade — é instituição. E entender por que um evento desses importa ajuda a enxergar para onde o setor caminha: rumo a uma hospitalidade que precisa ser, ao mesmo tempo, lucrativa e sustentável.

O que é, de fato, um congresso de turismo

Há uma imagem fácil e enganosa do congresso setorial: palestras, crachás e coffee break. A função real é outra e mais densa. Um congresso é onde a cadeia se vê inteira de uma vez.

No CIHAT, isso acontece sob organização da ABRESI — a Associação Brasileira de Gastronomia, Hospitalidade e Turismo — com co-realização da CNTur, a Confederação Nacional do Turismo. A 28ª edição foi sediada no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo, reunindo lideranças sindicais e civis do chamado trade turístico.

Por que isso é diferente de uma feira comercial? Porque o que está em pauta não é vender um quarto ou um prato, e sim definir as regras, os números e as bandeiras do conjunto. Um congresso bem conduzido entrega três coisas:

  • Pauta comum: transforma queixas dispersas — carga tributária, informalidade, qualificação de mão de obra — em uma agenda que o poder público consegue ler.
  • Dados do setor: consolida estatísticas que, sozinha, nenhuma empresa teria como levantar.
  • Representação: dá rosto e voz a milhões de trabalhadores e empregadores que, individualmente, não chegam a um ministério.

É a diferença entre reclamar do tempo e organizar uma frente meteorológica de interesses.

A engrenagem invisível: entidades patronais e sindicais

Quem nunca trabalhou no trade costuma subestimar a malha de entidades que sustenta o turismo brasileiro. Ela é grande — e é justamente essa escala que dá ao setor seu peso.

A CNTur, parceira do CIHAT, reúne mais de 130 sindicatos patronais e 7 federações. Juntas, essas entidades representam cerca de 3 milhões de empresas e algo em torno de 8 milhões de empregos diretos. São números que mudam a conversa: turismo deixa de ser "lazer" e passa a ser política industrial.

Essa estrutura cumpre um papel que o mercado sozinho não faz:

  1. Negociação coletiva — pisos salariais, jornada e condições de trabalho em hotelaria, gastronomia e eventos.
  2. Interlocução com o Estado — desde regulação sanitária até linhas de crédito e política de vistos.
  3. Defesa em crises — pandemias, recessões e choques cambiais atingem o turismo em cheio; foi a articulação setorial que sustentou parte do socorro em momentos críticos.

Entender essa engrenagem ajuda a explicar por que um congresso reúne tanta liderança sindical: é ali que a base conversa com quem a representa, e que a representação calibra o que vai levar adiante.

Gastronomia, hotelaria e empregos: a pauta que não envelhece

Os temas que circulam por um CIHAT mudam de roupa, mas guardam um esqueleto estável. Gastronomia, hospedagem e geração de emprego formam o tripé que volta edição após edição — e por boas razões.

A gastronomia brasileira virou ativo de competitividade internacional: cozinha regional, ingredientes nativos e chefs reconhecidos transformaram o prato em motivo de viagem. A hotelaria, por sua vez, vive a tensão entre escala e experiência, entre a rede global e a pousada de dono. E o emprego — talvez o tema mais sensível — esbarra sempre na mesma pedra: a sazonalidade e a informalidade de uma força de trabalho jovem e rotativa.

O que esses encontros fazem de melhor é cruzar essas pautas. Qualificar o cozinheiro melhora o destino. Profissionalizar a recepção reduz a rotatividade. Formalizar o emprego aumenta a arrecadação que financia a promoção turística. Tudo se retroalimenta — e é difícil enxergar esse círculo de dentro de uma única empresa.

A virada sustentável: do discurso à régua

Aqui entra o eixo que mais cresce na pauta setorial: a sustentabilidade. Por muito tempo tratada como verniz de marketing, ela migrou para o centro da estratégia — e por pressão de quem paga a conta, o viajante.

O turismo sustentável parte de uma premissa simples e dura: o destino é o produto, e produto degradado não se vende duas vezes. Praia poluída, trilha erodida e cidade histórica descaracterizada são prejuízo de longo prazo disfarçado de lucro imediato.

A agenda mais recente vai além de "não degradar". Fala-se em turismo regenerativo — a ideia de que a visitação, bem desenhada, pode deixar o lugar melhor do que o encontrou: financiando conservação, remunerando comunidades locais e recuperando áreas degradadas. É um salto conceitual: da neutralidade para o saldo positivo.

Para o trade, isso impõe régua nova. Quem quiser falar de sustentabilidade com seriedade precisa medir consumo de água e energia, gestão de resíduos, cadeia de fornecedores e impacto social — não basta plantar uma muda e fotografar. As entidades setoriais têm papel decisivo aqui: são elas que podem transformar boas intenções dispersas em padrões, selos e formação. Para quem quer começar pelo básico, vale entender as razões para empresas serem ecologicamente corretas, porque sustentabilidade no turismo começa na operação cotidiana, não no slogan.

Por que o congresso ainda importa

Em tempos de feira virtual e webinar, é justo perguntar se um grande congresso presencial ainda faz sentido. Faz — e talvez mais do que antes.

A razão é que as decisões que moldam o turismo não são técnicas, são coletivas. Um padrão de sustentabilidade só vale quando o setor inteiro o adota; uma pauta trabalhista só avança com base organizada; um destino só se promove se a cadeia falar a uma voz. Nada disso se constrói em silos.

É por isso que eventos como o CIHAT, sustentados por entidades como ABRESI e CNTur, funcionam como o sistema nervoso do trade. Eles não resolvem sozinhos os problemas do turismo brasileiro — informalidade, infraestrutura, desigualdade entre regiões. Mas criam o espaço onde esses problemas viram agenda, e onde a agenda da sustentabilidade deixa de ser exceção para virar régua.

No fim, a pergunta que esses congressos colocam é a mesma que a natureza coloca a quem vive dela: o que ficará para depois da visita? Um setor que aprende a responder isso — medindo, organizando e se representando — é um setor que tem futuro. E é nesse aprendizado, mais do que em qualquer palestra isolada, que mora a importância de o turismo brasileiro continuar se reunindo para pensar em voz alta.


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RP
Redação Planeta Ecoturismo

Planeta Ecoturismo — jornalismo de ecoturismo e sustentabilidade, com curadoria e revisão humana.

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