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Por que o mar deve subir até 36 cm em Santos — e o que isso significa

Pesquisas projetam elevação do nível do mar e mais ressacas em Santos. Entenda as causas, os impactos na orla e no porto e como adaptar a cidade.

RPRedação Planeta Ecoturismo18 de junho de 2026 · 6 min de leitura
Por que o mar deve subir até 36 cm em Santos — e o que isso significa

Imagine a orla de Santos numa manhã de ressaca: o mar invade o calçadão, a água escura sobe pelas galerias de drenagem e devolve para a rua o que deveria escoar. Agora imagine essa cena não como exceção de inverno, mas como rotina previsível de um litoral que vai amanhecer alguns centímetros mais alto. Não é ficção: é o cenário que pesquisas científicas vêm desenhando para a Baixada Santista nas próximas décadas.

A cidade mais conhecida do litoral paulista virou caso de estudo justamente por reunir um porto estratégico, bairros baixos densamente ocupados e uma costa que já recua há décadas. Entender por que o número "36 centímetros" circula nesse debate — e o que ele realmente significa — é o melhor antídoto contra dois extremos igualmente perigosos: o pânico e a indiferença.

De onde vem o número

A referência mais sólida para Santos é o chamado Projeto Metrópole, conduzido por pesquisadores de instituições brasileiras como Cemaden, INPE, USP e Unicamp, ao lado de centros internacionais. O estudo cruzou projeções de elevação do nível do mar com a topografia detalhada da cidade e com o histórico local de ressacas.

Os resultados desse trabalho indicam uma elevação na faixa de cerca de 18 a 23 centímetros até 2050 e de 36 a 45 centímetros até 2100, dependendo do cenário de emissões adotado. Em outras palavras, no horizonte da ciência local os 36 centímetros aparecem como marca de fim de século no cenário central — e podem ser antecipados para meados do século apenas nos cenários mais pessimistas, que combinam emissões altas, subsidência do terreno e ressacas mais frequentes.

Por isso a leitura correta de "~36 cm até 2050" é a de um cenário de estresse, não de uma certeza. É o limite superior que serve para planejar a cidade pela margem segura, e não a aposta mais provável. Tratá-lo assim — como teto de planejamento — é o que diferencia engenharia costeira séria de alarmismo.

Por que o mar sobe

A elevação do nível do mar não é um fenômeno misterioso. Ela tem causas físicas bem estabelecidas, sintetizadas a cada ciclo pelo IPCC, o painel climático da ONU. Duas delas pesam mais.

A primeira é a expansão térmica: a água, ao esquentar, ocupa mais volume. Como o oceano absorveu a maior parte do calor extra retido pelo aquecimento global, ele literalmente incha. A segunda é o degelo de geleiras continentais e das calotas da Groenlândia e da Antártida, que despeja no mar água antes estocada em terra firme.

Há ainda fatores locais que modulam o resultado em cada cidade. Em Santos, parte da planície é terreno baixo e mole, sujeito a acomodação do solo; somam-se correntes, marés e a geometria da baía. Por isso a mesma elevação global produz impactos diferentes em cada trecho do litoral — e medir o caso de Santos exige dados de Santos.

Segundo o IPCC, o nível médio global do mar continuará subindo por séculos, mesmo que as emissões sejam contidas, porque os oceanos respondem ao aquecimento com atraso. A pergunta deixou de ser "se" e passou a ser "quanto e quão rápido".

O que está em jogo em Santos

O risco não vem dos centímetros isolados, e sim da combinação deles com as ressacas. Uma maré alta de tempestade que hoje molha o calçadão passa a entrar mais fundo quando parte do caminho já foi vencida pela elevação de base. O mar não precisa subir 36 centímetros de uma vez: ele só precisa de um ponto de partida mais alto para que cada ressaca chegue mais longe.

Os estudos sobre a Baixada Santista apontam um conjunto recorrente de impactos:

  • Erosão da orla, sobretudo no trecho sudeste entre Boqueirão e a Ponta da Praia, que já recua desde meados do século passado.
  • Inundações costeiras mais frequentes e profundas em bairros baixos próximos à praia e ao estuário.
  • Falha de drenagem: quando o mar sobe, as galerias perdem a capacidade de escoar por gravidade, e a água da chuva fica represada dentro da cidade.
  • Pressão sobre o porto: cais, retroárea e acessos logísticos são sensíveis à cota da água, e o complexo santista é peça central da economia nacional.
  • Avanço sobre manguezais e restingas da zona noroeste, ecossistemas que protegem a costa mas têm pouco espaço para "recuar" diante da Serra do Mar e da ocupação urbana.

A Ponta da Praia se tornou o rosto desse problema. Foi ali que ressacas seguidas comeram faixas de areia e ameaçaram a avenida à beira-mar, levando o poder público a testar intervenções de contenção. É o trecho onde o futuro projetado já bateu à porta no presente.

O que cidades litorâneas podem fazer

A boa notícia é que adaptação costeira é um campo maduro, com um repertório de medidas que vai do concreto à natureza. Não existe solução única; existe combinação calibrada para cada trecho.

  • Obras de proteção: enrocamentos, recomposição de praia (engordamento) e estruturas submersas que quebram a energia das ondas antes que cheguem à orla — caminho já ensaiado na Ponta da Praia.
  • Restauração de ecossistemas: recuperar manguezais e restingas funciona como barreira viva, dissipando ondas e segurando sedimento a um custo de manutenção muito menor que o do concreto.
  • Recuo planejado: em pontos onde defender sai caro demais, repensar usos e limitar novas construções na cota de risco evita transformar prejuízo futuro em dívida pública.
  • Drenagem adaptada: comportas, bombeamento e reservatórios de amortecimento para que a chuva tenha para onde ir quando o mar fecha a saída natural.
  • Sistemas de alerta: previsão de ressacas e maré meteorológica, integrada à defesa civil, transforma centímetros de risco em horas de antecedência.

Acima de tudo, adaptar exige medir. As mesmas certificações e métricas que tornam visível o desempenho ambiental de um edifício também valem para uma orla: sem dado, não há decisão defensável. Essa lógica de transformar paisagem em informação — e informação em política — é a ponte entre ciência e gestão que exploramos no nosso guia de turismo e sustentabilidade.

Santos não é exceção, é prenúncio. Recife, a Baixada Fluminense, o litoral do Pará e dezenas de municípios brasileiros compartilham a mesma equação de terreno baixo, ocupação densa e mar em ascensão. A cidade que aprende a ler seus próprios centímetros — e a agir uma década antes que eles cheguem — não está apenas se defendendo do mar. Está mostrando ao país inteiro o que significa, na prática, conviver com uma costa que mudou. É onde a natureza vira conhecimento, e o conhecimento vira tempo ganho.


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RP
Redação Planeta Ecoturismo

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