26 mil cavernas catalogadas e quase metade em Minas: o mapa subterrâneo do Brasil
O anuário do ICMBio/Cecav reúne 26.046 cavidades. Veja onde estão, por que importam e como visitar uma caverna sem virar problema.
O Brasil que a gente conhece é o de cima: as trilhas, os mirantes, as cachoeiras que aparecem nas fotos. Existe um outro, e ele acaba de ganhar um número. O Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas do ICMBio, o Cecav, divulgou o Anuário Estatístico do Patrimônio Espeleológico Brasileiro com informações de 26.046 cavidades naturais subterrâneas, cruzando os dados inseridos no cadastro oficial ao longo de 2023 e 2024.
É um retrato parcial, e o próprio órgão faz questão de dizer isso. O anuário não representa todo o universo de cavernas do território brasileiro: reúne apenas a porção que já foi prospectada por pessoas, grupos ou instituições, teve os dados publicados e chegou ao cadastro. O Brasil subterrâneo real é maior. O que temos é o pedaço que alguém foi lá, mediu e registrou.
O ritmo das descobertas
Desde a edição de 2022 do anuário, foram registradas 2.668 novas cavernas, um aumento de 11,41% em relação ao levantamento anterior. A média dos últimos quinze anos fica em torno de 1.335 cavernas cadastradas por ano.
"Evidenciando um ritmo constante de descobertas e mapeamento", resumiu Jocy Cruz, coordenador do ICMBio/Cecav, ao comentar os dados. O sistema que guarda tudo isso, o Cadastro Nacional de Informações Espeleológicas (CANIE), já passa de 28 mil cavernas registradas, porque continua recebendo entradas depois do fechamento do anuário.
Um dado ajuda a entender por que o mapa engorda tão rápido: o número de pesquisas científicas sobre cavernas cresceu 280% nos últimos dezesseis anos, segundo levantamento do próprio Cecav. Mais gente olhando, mais coisa encontrada.
Onde estão as cavernas brasileiras
A distribuição é desigual de um jeito que surpreende quem nunca olhou o mapa. Minas Gerais concentra 12.911 cavernas conhecidas, ou 49,57% do total nacional. Quase metade do Brasil subterrâneo cabe em um estado só.
Depois vêm:
- Pará, com 3.224 cavernas (12,38%)
- Bahia, com 2.017 (7,74%)
- Rio Grande do Norte, com 1.373 (5,27%)
- Goiás, com 1.136 (4,36%)
Juntos, esses cinco estados respondem por 80% das cavernas conhecidas no país.
Por bioma, o Cerrado lidera com folga: 12.008 cavernas, 46,10% do total. No extremo oposto, Pampa e Pantanal somam quase nada, com 38 e 12 registros respectivamente. A geologia explica boa parte da conta, já que rochas carbonáticas e ferríferas favorecem a formação de cavidades, e o Cerrado tem muito dessas duas.
Por que uma caverna importa além do passeio
A tentação é tratar caverna como cenário. Ela é bem mais que isso, e o ICMBio lista as funções com clareza: as cavidades naturais subterrâneas participam do armazenamento de água, protegem minerais raros e abrigam espécies, muitas delas endêmicas, que não existem em nenhum outro lugar.
Há ainda o papel de arquivo. O ambiente subterrâneo funciona como laboratório natural para entender como as mudanças do clima estão agindo sobre o meio ambiente, porque preserva registros que a superfície apaga. Cada camada de sedimento e cada formação mineral guarda uma linha do tempo.
É por isso que o cadastro não nasceu como curiosidade acadêmica. O CANIE foi instituído pela Resolução Conama nº 347, de 10 de setembro de 2004, que estabeleceu procedimentos de uso e exploração do patrimônio espeleológico nacional. Na prática, o sistema alimenta o licenciamento ambiental: parte relevante dos dados chega justamente porque empreendimentos precisam apresentá-los. Mineração, rodovias, linhas de transmissão e usinas entram no cruzamento do anuário porque disputam o mesmo território.
Do dado ao passeio: onde dá para entrar
Catalogada não significa visitável. A maior parte das 26 mil cavidades não tem estrutura, autorização nem segurança para receber gente, e várias ficam em propriedades privadas ou em áreas de estudo.
O caminho mais direto para quem quer conhecer o mundo subterrâneo é procurar as unidades de conservação que organizaram a visitação. O caso mais emblemático é o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, criado por decreto em 21 de setembro de 1999, com 56.448,32 hectares no norte de Minas Gerais. A sede fica em Januária, na Rodovia MGT-135, e o parque protege espécies ameaçadas como a onça-pintada, o lobo-guará e o bagre cego cambeva, peixe que vive exatamente nas águas subterrâneas da região.
Antes de montar o roteiro, vale a regra que serve para qualquer parque brasileiro: confirmar no canal oficial da unidade as condições de visitação, os horários e a exigência de agendamento ou de condutor credenciado. Essas regras mudam por temporada, e a informação que circula em blog de viagem envelhece rápido.
Como visitar sem virar problema
Caverna é ambiente frágil e de recuperação lenta. Algumas orientações são consenso entre gestores e grupos de espeleologia:
- Vá com condutor credenciado. Não é frescura de regulamento. Em ambiente subterrâneo, orientação e leitura de risco são serviço técnico.
- Não toque nas formações. A gordura da pele interrompe o processo de crescimento de estalactites e estalagmites, que acontece em escala de séculos.
- Respeite o limite de grupo. O número de visitantes por vez existe para controlar temperatura, umidade e perturbação da fauna.
- Fique na trilha marcada. O chão de uma caverna guarda sedimento e vestígio arqueológico que somem com uma pisada.
- Não leve nada e não deixe nada. Vale para pedra, vale para lixo, vale para grafite.
A presença de morcegos merece atenção específica. Eles são parte essencial do ecossistema e não devem ser perturbados nem iluminados diretamente, e ambientes com grande acúmulo de guano exigem cuidados que o condutor local conhece melhor do que qualquer guia impresso.
O que os números não contam
O anuário é uma boa notícia e um alerta ao mesmo tempo. É boa notícia porque mostra que o país está mapeando o que tem, em ritmo constante e com base científica crescente. É alerta porque cada nova caverna registrada entra em um mapa que também é disputado por licenciamento, obra e lavra.
A conta final é simples de enunciar e difícil de resolver: conhecer é o primeiro passo para proteger, mas conhecer também escancara para quem quer explorar. O cadastro cumpre os dois papéis ao mesmo tempo, e é por isso que o dado precisa vir acompanhado de gestão. Ecoturismo bem feito, com condutor local, limite de carga e receita que fica na região, é um dos poucos argumentos econômicos que a conservação consegue apresentar de igual para igual.
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Perguntas frequentes
Quantas cavernas o Brasil tem registradas?
O Anuário Estatístico do Patrimônio Espeleológico Brasileiro, do ICMBio/Cecav, reúne dados de 26.046 cavidades naturais subterrâneas referentes a 2023 e 2024. O cadastro oficial, o CANIE, já ultrapassa 28 mil registros, e o próprio órgão ressalta que esse número não corresponde a todas as cavernas existentes no país, apenas às que foram prospectadas e cadastradas.
Qual estado brasileiro tem mais cavernas?
Minas Gerais, com 12.911 cavernas conhecidas, o equivalente a 49,57% do total nacional. Em seguida aparecem Pará (3.224), Bahia (2.017), Rio Grande do Norte (1.373) e Goiás (1.136). Esses cinco estados somam 80% das cavernas catalogadas.
Dá para visitar qualquer caverna catalogada?
Não. Estar no cadastro significa que a cavidade foi mapeada e registrada, não que ela esteja aberta ao público. A visitação organizada acontece em unidades de conservação e em atrativos estruturados, geralmente com agendamento, limite de grupo e condutor credenciado. Confirme sempre nos canais oficiais da unidade antes de viajar.