Quatro jacutingas voltam à Mantiqueira: como se ensina uma ave a ser selvagem outra vez
Aves nascidas no Parque das Aves seguem para São Francisco Xavier. Entenda o treino antes da soltura e o papel da jacutinga na floresta.
Quatro jacutingas nascidas em Foz do Iguaçu embarcaram em agosto rumo ao interior de São Paulo. O destino é o distrito de São Francisco Xavier, na Serra da Mantiqueira, área de ocorrência natural da espécie na Mata Atlântica. O voo foi de avião, e não delas: as aves ainda vão precisar de meses de preparo antes de poderem sair batendo asa por conta própria.
O detalhe explica a parte mais interessante desse tipo de trabalho. Devolver uma ave à natureza não é abrir a porta da gaiola.
Quem são as aves
A jacutinga, de nome científico Aburria jacutinga, é uma ave frugívora de grande porte, típica da Mata Atlântica. Está classificada como Em Perigo de extinção na lista nacional e na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza. Em São Paulo, uma avaliação de 2018 chegou a classificá-la como criticamente em perigo de desaparecer do estado.
As razões do declínio são as de sempre, e nesta ordem: a fragmentação da floresta e a caça. Ave grande, de carne apreciada e comportamento pouco arisco, a jacutinga foi das primeiras a sumir dos remanescentes próximos a áreas habitadas.
As quatro que seguiram para São Paulo nasceram sob cuidados humanos no Parque das Aves, em Foz do Iguaçu, no Paraná. O transporte foi feito gratuitamente pela companhia aérea LATAM, por meio do programa Avião Solidário, com apoio da Associação de Zoológicos e Aquários do Brasil.
O motivo ecológico: uma ave que planta floresta
Se fosse apenas uma questão de salvar uma espécie bonita, o esforço já se justificaria. Mas o caso da jacutinga tem uma camada a mais, e é ela que explica o investimento.
A jacutinga come dezenas de frutos nativos e, ao se deslocar pela mata, dispersa as sementes desses frutos longe da planta-mãe. Isso a torna uma peça central na regeneração do bioma e, por consequência, na manutenção dos mananciais que nascem dentro dessas florestas.
O exemplo mais citado é o do palmito juçara. A jacutinga está entre os poucos animais capazes de engolir o fruto inteiro e transportar a semente a distâncias longas. Quando a ave desaparece de um trecho de mata, a dispersão dessas sementes cai, a regeneração fica concentrada embaixo das árvores adultas, e a floresta perde capacidade de se renovar e de avançar sobre áreas degradadas.
É o tipo de serviço ecológico que só fica visível na ausência. Uma mata sem jacutinga continua verde por décadas, e vai empobrecendo em silêncio.
O treino: reaprender o que nunca se aprendeu
Antes da soltura, as aves passam por um período de adaptação e treinamento comportamental. É a etapa que separa uma reintrodução séria de uma soltura simbólica.
O que se ensina, na prática:
Reconhecer predadores. Uma ave criada sob cuidado humano nunca precisou temer nada. Na Mata Atlântica, precisa. O treino trabalha respostas de alerta e fuga a estímulos que simulam ameaça.
Comer frutos nativos. Alimentação de cativeiro não se parece com o cardápio da floresta. A ave precisa identificar como alimento os frutos que vai encontrar na mata, e saber manipulá-los.
Deslocar-se com autonomia. Voar entre galhos, calcular distância, ocupar o estrato certo da floresta, encontrar poleiro seguro para dormir. São habilidades que se desenvolvem com espaço e com prática.
Ao fim do processo, as aves passam por avaliações comportamentais. Só as que demonstram os comportamentos essenciais à sobrevivência seguem para a soltura. É um filtro que existe para não transformar reintrodução em desperdício de animal e de trabalho.
Um projeto de dez anos
Essa não é uma iniciativa isolada. O trabalho é conduzido pelo Projeto Jacutinga, coordenado pela SAVE Brasil, a Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil.
Desde 2016, a organização atua para reintroduzir a espécie na Serra da Mantiqueira, e mais de 60 aves já foram soltas na região. O Parque das Aves envia exemplares para soltura em remanescentes florestais de São Paulo desde 2017, e a origem dos animais inclui também plantéis mantidos pela Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.
A escolha da Mantiqueira não é casual. A região reúne remanescentes florestais extensos, altitude e regime de chuvas compatíveis com a espécie, e conectividade entre fragmentos, condição sem a qual uma população reintroduzida fica ilhada e volta a declinar.
Um projeto que atravessa dez anos e mais de sessenta indivíduos permite algo que soltura pontual não permite: acompanhar se as aves sobrevivem, se ocupam território, e principalmente se reproduzem na natureza. Reintrodução só vira conservação quando a população passa a se sustentar sozinha.
O que isso significa para quem observa aves
Para quem pratica birdwatching no Brasil, notícias como essa mudam o mapa. Espécies ameaçadas que voltam a ocupar áreas onde haviam sumido criam novos destinos de observação e reforçam o argumento econômico da conservação, já que observadores de aves viajam, se hospedam, contratam guias e sustentam economia local em regiões de mata.
Se você pretende visitar áreas de reintrodução, valem as regras básicas do turismo responsável: contratar guias locais, manter distância, não usar chamado sonoro para atrair aves em áreas de reprodução, e jamais oferecer alimento. Ave que associa gente a comida perde exatamente o comportamento que o treino levou meses para construir.
Quem quiser começar nesse tipo de observação encontra no guia de observação de aves no Brasil o passo a passo de equipamento, destinos e etiqueta de campo.
O que vem depois da soltura
As quatro aves seguem agora o cronograma de adaptação em São Francisco Xavier. Se passarem nas avaliações, ganham a mata.
O que acontece depois é a parte que ninguém fotografa: monitoramento, busca por sinais de nidificação, contagem de filhotes nascidos livres. É lento, é caro e é o único indicador que interessa de verdade.
Uma floresta se mede pelas árvores. Mas quem planta boa parte delas, no caso da Mata Atlântica, tem penas.