A trilha virou política pública: São Paulo cria rede estadual e o DF abre 18 percursos em uma semana
São Paulo criou sua Rede Estadual de Trilhas e o DF abriu 18 percursos. Por trás disso, um dado do ICMBio: R$ 40,7 bilhões movimentados pela visitação.
Duas notícias da mesma semana, aparentemente pequenas, contam junto uma história maior. O Governo de São Paulo instituiu a Rede Estadual de Trilhas, reunindo mais de mil percursos sob critérios comuns. E o Distrito Federal abriu, em 1º de agosto, 18 trilhas ecológicas para caminhada gratuita no Cerrado.
Separadas, são pautas de agenda. Juntas, indicam que a trilha deixou de ser assunto de clube de montanhismo e virou instrumento de política pública — com marco regulatório, órgão responsável e expectativa de retorno econômico.
Há um número que explica essa virada.
Os R$ 40,7 bilhões que ninguém esperava
Estudo divulgado pelo ICMBio em maio de 2026 mediu o efeito econômico da visitação às unidades de conservação federais em 2025. Os resultados:
- 28,5 milhões de visitas em 175 unidades de conservação federais — recorde histórico desde o início do monitoramento, em 2000
- R$ 40,7 bilhões movimentados em vendas na economia brasileira
- R$ 20,3 bilhões de contribuição ao PIB
- R$ 9,8 bilhões em renda gerada para as famílias
- 332,5 mil empregos sustentados
- quase R$ 3 bilhões em arrecadação tributária
Os parques nacionais concentram a maior parte do fluxo: 13,6 milhões de visitantes, R$ 21,6 bilhões em vendas e 219,6 mil empregos. O Parque Nacional da Tijuca lidera com 4,9 milhões de visitas, seguido por Iguaçu e Jericoacoara.
O indicador que mais circulou entre gestores, porém, foi outro: cada R$ 1 investido no ICMBio retorna cerca de R$ 16 em valor agregado ao PIB e R$ 2,30 em arrecadação. A receita tributária gerada superou o dobro do orçamento total do órgão em 2025.
Esse tipo de número muda a conversa dentro do governo. Área protegida deixa de ser rubrica de despesa e passa a ser ativo com retorno mensurável — e quem defende orçamento passa a ter argumento que o interlocutor da economia entende.
O que São Paulo montou
A Rede Estadual de Trilhas foi instituída por resolução conjunta da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), da Fundação Florestal e da Secretaria de Turismo e Viagens (Setur-SP). Tem apoio do Ministério do Turismo, do Ministério do Meio Ambiente e do Corpo de Bombeiros paulista.
O desenho tem três elementos que importam mais do que o anúncio.
Critérios comuns. A resolução define classificação de trilhas — local, regional, nacional — com regras de gestão, sinalização e segurança. Parece burocracia; é o oposto. Trilha sinalizada de um jeito no parque estadual e de outro no município vizinho é como se resolve resgate com atraso.
Uso exclusivamente não motorizado. Caminhada e cicloturismo. A definição exclui quadriciclo e trilha de moto, atividades que costumam ser o principal vetor de erosão e conflito em áreas de uso público.
Integração com a Rede Nacional de Trilhas de Longo Curso e Conectividade. É a parte estratégica. A rede nacional articula percursos de centenas de quilômetros — a Trilha Transcarioca, a Trilha da Mata Atlântica, o Caminho da Mata Atlântica — costurando unidades de conservação que, isoladas, são fragmentos.
Por que conectividade não é só palavra bonita
A lógica da conectividade é ecológica antes de ser turística.
Um fragmento de mata isolado perde espécies com o tempo, mesmo protegido. Populações pequenas empobrecem geneticamente, um evento extremo elimina o que restou, e não há de onde recolonizar. Corredores que ligam fragmentos permitem fluxo de fauna e de material genético — é a diferença entre uma ilha e um sistema.
Trilhas de longo curso não são corredores ecológicos por si só, mas costumam correr por eles. E fazem algo que o corredor sozinho não faz: criam constituência. Uma área que centenas de pessoas percorrem todo mês tem quem reclame quando ela é ameaçada. Área que ninguém visita é desafetada em silêncio.
A visitação, nesse sentido, é uma forma de vigilância distribuída.
O caso do DF: o Cerrado que quase ninguém caminha
As 18 trilhas abertas no Distrito Federal em 1º de agosto merecem nota separada por causa do bioma.
O Cerrado sofre de um problema de imagem crônico. Comparado à Amazônia e à Mata Atlântica, é percebido como paisagem pobre — mato baixo, árvore torta, capim. É a savana mais biodiversa do planeta e um dos biomas mais ameaçados do Brasil, com taxa de desmatamento que em vários anos recentes superou a amazônica.
Parte da vulnerabilidade é justamente estética. Ninguém se mobiliza por uma paisagem que não conhece. Abrir trilha em Cerrado, sobretudo perto de centro urbano, faz um trabalho de conversão lento e difícil de medir: transforma "mato" em lugar com nome, com nascente, com época de floração.
Quem caminha no Cerrado em agosto, aliás, encontra a versão mais dura dele — seco, com risco de fogo alto e umidade baixa. Vale checar a condição antes de sair e evitar horário de pico de calor.
O gargalo que os números escondem
O estudo do ICMBio, ao mesmo tempo em que celebra o recorde, levanta preocupações que costumam sumir da divulgação: capacidade de carga, pressão sobre ecossistemas sensíveis e o equilíbrio entre conservação e exploração econômica.
A advertência é pertinente. Visitação recorde é receita e é impacto — pisoteio, resíduo, ruído, introdução de espécies exóticas, erosão de leito de trilha.
O que separa um caso do outro é infraestrutura e manejo: passarela onde o solo é frágil, limite diário de visitantes, monitoramento, equipe de campo. Tudo isso custa e depende de orçamento — que é exatamente o argumento que o dado dos R$ 16 por real investido pretende sustentar.
Estruturar uma rede de trilhas sem prever manutenção é criar passivo com cara de política pública. Trilha malconservada não fica parada no tempo: ela vira valeta, atalho e ponto de erosão, e o custo de recuperar é maior que o de manter.
O que observar nos próximos meses
Algumas coisas dirão se o movimento é estrutural ou anúncio:
Sinalização e cadastro efetivos. Rede que existe em resolução mas não em placa no chão não muda a experiência de quem caminha.
Protocolo de emergência. O envolvimento do Corpo de Bombeiros no arranjo paulista é o detalhe mais promissor. Trilha sinalizada com quilometragem e ponto de referência reduz drasticamente tempo de resgate.
Repasse a comunidades locais. O estudo do ICMBio registra renda familiar gerada, mas a distribuição desigual é o ponto fraco histórico do turismo de natureza no Brasil. Condutor local, pousada de morador e associação comunitária precisam aparecer na cadeia, não só operadora de fora.
Orçamento de manutenção. É o indicador mais honesto. Se a linha de manutenção não aparece no ano seguinte, a rede vira mapa.
Por enquanto, o que existe é um movimento raro: a conservação encontrando um argumento que o resto do governo escuta. Vale acompanhar se ele sobrevive ao segundo ano.