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São Paulo cria a Rede Estadual de Trilhas: o que muda para quem caminha

SP instituiu em 22/07 a Rede Estadual de Trilhas: três níveis de percurso, sinalização padronizada e regras de segurança. O que muda para quem caminha.

RPRedação Planeta Ecoturismo29 de julho de 2026 · 6 min de leitura
São Paulo cria a Rede Estadual de Trilhas: o que muda para quem caminha

Quem caminha no Brasil conhece o problema: você chega numa trilha, encontra uma placa desbotada de uma iniciativa que acabou, um mapa que não bate com a bifurcação da frente e nenhuma informação sobre quanto tempo falta, qual o grau de dificuldade ou quem chamar se der errado. A trilha existe. O sistema em volta dela, não.

Em 22 de julho de 2026, o governo de São Paulo tentou atacar exatamente isso: instituiu, por resolução conjunta, a Rede Estadual de Trilhas de São Paulo. A medida não constrói caminho novo — ela organiza os que já existem sob critérios comuns de gestão, sinalização e segurança, e define as regras para os que forem criados daqui em diante.

Parece burocrático. É, e é justamente por isso que importa.

O que a resolução institui

O ato foi assinado em conjunto por três frentes do governo estadual:

  • a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil);
  • a Fundação Florestal, entidade vinculada que administra as unidades de conservação paulistas;
  • a Secretaria de Turismo e Viagens (Setur-SP).

A iniciativa conta ainda com apoio do Ministério do Turismo, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo.

A presença dos bombeiros na lista não é decorativa. Padronização de sinalização e de classificação de trilha é, antes de qualquer coisa, um instrumento de resgate: quando uma equipe sabe de antemão o traçado, os pontos de acesso e o grau de dificuldade de um caminho, o tempo de resposta a um acidente cai.

Os três tipos de trilha

O ponto mais concreto da resolução é a classificação. A rede organiza os caminhos em três níveis, definidos pela duração do percurso:

1. Trilhas locais. De curta duração — percorridas em algumas horas, no máximo em um dia. É a categoria da maior parte dos caminhos dentro de parques estaduais, aqueles que o visitante faz num passeio de fim de semana.

2. Trilhas de longo curso regionais. Exigem no mínimo um pernoite e podem chegar a 28 dias de percurso. São travessias que ligam municípios, atravessam mais de uma área protegida e demandam planejamento de logística, água e alimentação.

3. Trilhas de longo curso nacionais. Duração superior a 28 dias, formadas pela integração de duas ou mais trilhas regionais ou nacionais. É a escala das grandes travessias continentais, que conectam estados.

Essa hierarquia resolve uma confusão prática antiga. Até aqui, "trilha" designava tanto uma caminhada de duas horas até uma cachoeira quanto uma travessia de um mês — e o visitante que só conhecia a primeira, às vezes, entrava na segunda achando que era a mesma coisa. Classificar é, no fundo, um ato de segurança.

Por que padronizar muda a experiência

Sinalização comum significa que a marcação que você aprendeu a ler num parque vale no parque seguinte. Critérios comuns de gestão significam que quem administra dois caminhos vizinhos usa a mesma régua para decidir manutenção, capacidade e fechamento em dia de risco.

Do ponto de vista da conservação, há um ganho menos evidente e mais importante: trilha bem marcada é trilha que concentra o pisoteio numa faixa só. Caminho mal sinalizado produz atalhos, e atalhos produzem erosão, compactação de solo e abertura de clareiras onde não deveria haver nenhuma. A placa não é enfeite — é contenção de impacto.

Do ponto de vista econômico, a lógica é a que já se viu funcionar em outros roteiros de longo curso mundo afora: quem caminha por vários dias dorme, come e compra na cidade da ponta. A trilha de longo curso é uma das poucas formas de turismo que distribui receita para municípios pequenos sem exigir grande infraestrutura hoteleira.

Ana Biselli Aidar, secretária de Turismo e Viagens, classificou a medida como "uma virada de chave para o turismo de natureza em São Paulo".

O que não muda dentro das unidades de conservação

Este é o ponto que merece atenção de quem se preocupa com conservação, porque é onde estava o risco.

As trilhas localizadas dentro de unidades de conservação — parques estaduais, principalmente — continuam subordinadas às diretrizes dos respectivos Planos de Manejo e seguem geridas e reguladas diretamente pela Fundação Florestal.

Ou seja: a rede padroniza a linguagem, não sobrepõe a autoridade ambiental. Um caminho que o Plano de Manejo limita a determinado número de visitantes por dia continua limitado. Um trecho fechado para regeneração continua fechado.

Rodrigo Levkovicz, diretor-executivo da Fundação Florestal, resumiu a diretriz: a prioridade dentro das unidades de conservação é "garantir que o uso público e o turismo de aventura ocorram em harmonia com a preservação da biodiversidade".

Natália Resende, secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, foi na mesma direção ao falar do ordenamento: com a padronização dos caminhos, disse, "garantimos o estímulo à recreação, ao lazer e ao esporte de aventura de forma sustentável".

O que ainda falta saber

Vale registrar, com honestidade, o que a resolução ainda não responde.

Quais trilhas entram, e quando. A resolução cria o arcabouço e os critérios. A lista dos caminhos efetivamente integrados à rede, com quilometragem e traçado, é a etapa seguinte.

Quem paga a manutenção. Sinalização padronizada exige reposição periódica. Estrutura de pernoite em travessia de vários dias exige alguém responsável. A resolução organiza a governança; o financiamento contínuo é outra conversa.

Como fica a trilha fora de área protegida. Boa parte de uma travessia longa passa por propriedade privada, estrada rural e área urbana. A articulação com esses trechos é sempre a parte mais difícil de qualquer rede de trilhas.

Nada disso invalida a medida. Só situa o estágio: São Paulo acabou de escrever a regra do jogo. O jogo em si — colocar caminho no chão, marcar, manter e monitorar — começa agora.

Para quem caminha

Na prática imediata, pouca coisa muda no próximo fim de semana. As trilhas continuam onde estavam, com as mesmas regras de visitação de cada parque.

O que muda é o horizonte. Um estado que classifica seus caminhos por duração, padroniza a sinalização e coloca o corpo de bombeiros na mesa está construindo a base para o que hoje só existe de forma dispersa no Brasil: uma malha de caminhamento de longo curso comparável às grandes rotas de caminhada da Europa e da América do Norte.

O primeiro passo de qualquer travessia é sempre o mais chato. Costuma ser o mapa.

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RP
Redação Planeta Ecoturismo

Planeta Ecoturismo — jornalismo de ecoturismo e sustentabilidade, com curadoria e revisão humana.

Perguntas frequentes

O que é a Rede Estadual de Trilhas de São Paulo?

É um sistema estadual instituído por resolução conjunta em 22 de julho de 2026 que integra as trilhas existentes e orienta a criação de novas, sob critérios comuns de gestão, sinalização e segurança. Ela organiza os caminhos, não constrói caminhos novos por si só.

Quais órgãos assinam a resolução?

A Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), a Fundação Florestal e a Secretaria de Turismo e Viagens (Setur-SP). A iniciativa tem apoio do Ministério do Turismo, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo.

Quais são os três tipos de trilha da rede?

Trilhas locais, de curta duração, percorridas em horas ou em até um dia; trilhas de longo curso regionais, que exigem no mínimo um pernoite e podem chegar a 28 dias; e trilhas de longo curso nacionais, com duração superior a 28 dias, formadas pela integração de duas ou mais trilhas regionais ou nacionais.

As regras dos parques estaduais mudam com a nova rede?

Não. As trilhas dentro de unidades de conservação continuam subordinadas às diretrizes dos respectivos Planos de Manejo e seguem geridas e reguladas diretamente pela Fundação Florestal. Limites de visitação e trechos fechados para regeneração permanecem valendo.

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