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Desmatamento cai no Brasil, mas o Cerrado ainda derruba quase o dobro da Amazônia

Deter de junho de 2026: Amazônia cai 35%, mas o Cerrado soma 481,53 km². Veja os dados do INPE e do MapBiomas e por que o bioma é o menos protegido.

RPRedação Planeta Ecoturismo18 de julho de 2026 · 6 min de leitura
Desmatamento cai no Brasil, mas o Cerrado ainda derruba quase o dobro da Amazônia

Em 10 de julho, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais publicou na plataforma TerraBrasilis os alertas de desmatamento de junho. A manchete praticamente se escreveu sozinha: 297,26 km² detectados na Amazônia Legal, contra 457,61 km² em junho de 2025. Queda de 35%.

Na mesma divulgação, algumas linhas abaixo, estava o Cerrado: 481,53 km². Quase 200 km² a mais que a Amazônia, no mesmo mês, com uma queda de apenas 5,3% em relação ao ano anterior.

Esse segundo número quase não circulou. E ele é o mais importante dos dois.

O que o Deter mediu em junho

O Deter é um sistema de alerta, não um censo. Ele opera com imagens dos sensores WFI a bordo dos satélites CBERS-04, CBERS-04A e Amazônia-1, e emite avisos diários de supressão e degradação da vegetação nativa para orientar a fiscalização em campo. O próprio INPE faz questão de registrar a ressalva: os alertas "não constituem uma taxa de desmatamento mensal", apenas indicam tendência de comportamento no período monitorado.

A taxa oficial vem do Prodes, calculada uma vez por ano com imagens de resolução mais fina. Confundir os dois é o erro mais comum na leitura desses dados — e o que produz manchetes que envelhecem mal.

Há ainda um detalhe técnico que o INPE anotou em junho: houve cobertura significativa de nuvens no mês, o que pode ter atrapalhado o mapeamento em algumas regiões, especialmente no Cerrado. Ou seja, o número do bioma pode estar subestimado.

Em junho, o sistema identificou 1.233 alertas na Amazônia Legal e 2.880 no Cerrado.

A conta acumulada, que ninguém fez manchete

O calendário do Deter vai de agosto a julho. No acumulado de agosto de 2025 a junho de 2026, os avisos somaram:

  • Amazônia: 2.485,90 km², contra 3.959,98 km² no mesmo intervalo do calendário anterior — redução de 37,2%.
  • Cerrado: 4.689,40 km², contra 5.091 km² — redução de 7,9%.

O Cerrado, que é o menor dos dois biomas em extensão, acumulou quase o dobro da área sob alerta. E recuou cinco vezes menos.

Não é um acidente de um ano ruim. É o padrão.

O ano fechado conta a mesma história

O Relatório Anual do Desmatamento (RAD 2025), do MapBiomas, divulgado em maio deste ano, confirma a assimetria com uma metodologia independente e um recorte de ano civil.

O Brasil desmatou 984.794 hectares em 2025 — queda de 20,6% em relação a 2024 e o primeiro ano abaixo da marca de 1 milhão de hectares desde 2019. É uma boa notícia real, sem asterisco. A média diária ficou em 2.698 hectares, ou 112 hectares por hora.

A distribuição dessa perda é que desequilibra o quadro:

Bioma Área desmatada em 2025 Variação vs. 2024
Cerrado 540.614 ha −16,9%
Amazônia 289.478 ha −23,5%
Pantanal 12.260 ha −48,4%

O Cerrado sozinho respondeu por 54,9% de todo o desmatamento brasileiro em 2025 — mais da metade do país, num único bioma. O Pantanal registrou a maior redução proporcional entre todos, 48,4%, resultado que interessa de perto a quem acompanha a recuperação da planície pantaneira e o turismo de observação de fauna que se reconstrói por lá, especialmente no lado de Mato Grosso do Sul.

Por que o Cerrado perde mais e é protegido menos

A resposta mais direta está no mapa das unidades de conservação. Cerca de 8% do Cerrado está sob alguma UC. Na Amazônia, o percentual chega a 27% — mais de três vezes mais, segundo levantamento do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM).

E nem toda proteção protege igual. O RAD 2025 mostra que 46.257 hectares foram desmatados dentro de unidades de conservação no ano passado, uma queda de 21,4%. Nas UCs de proteção integral — parques nacionais, estações ecológicas, reservas biológicas — a perda foi de apenas 2.034 hectares, com recuo de 55,8%. O sistema funciona, quando o instrumento é forte.

O problema aparece nas Áreas de Proteção Ambiental, categoria de uso sustentável que admite ocupação humana e atividade econômica dentro dos limites. A APA do Rio Preto, no Cerrado, registrou 7.701 hectares desmatados — o maior número entre todas as unidades de conservação do país. A área continua legalmente protegida no papel. No satélite, não parece.

Nas terras indígenas, o desmatamento somou 12.593 hectares, com queda de 22% — menos de um oitavo do que se perdeu fora delas em áreas comparáveis.

O que isso tem a ver com a torneira da sua casa

Aqui a conversa deixa de ser sobre paisagem.

O Cerrado é conhecido entre hidrólogos como o berço das águas brasileiras. As nascentes que brotam no planalto central alimentam seis das oito grandes regiões hidrográficas do país, entre elas as do Amazonas, do Tocantins, do São Francisco e as do Atlântico Norte e Nordeste. Na bacia do São Francisco, a contribuição do bioma chega perto de 90% do volume.

Embaixo, três grandes aquíferos: Guarani, Bambuí e Urucuia. Pesquisadores da Embrapa Cerrados descrevem o fenômeno como "efeito guarda-chuva" — a posição alta e central do bioma faz dele o ponto de partida da água que desce para o resto do continente.

A vegetação do Cerrado é o mecanismo desse sistema. Árvores de raízes profundas, que descem dezenas de metros, funcionam como bomba e como filtro: infiltram a chuva no lençol em vez de deixá-la escorrer. Substituir isso por soja ou pasto não muda só o que se vê da estrada. Muda quanto de água chega ao rio três meses depois.

Onde entra quem viaja

O caso mais didático do Cerrado é o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, e ele é uma lição sobre o quanto esses limites são políticos, não naturais.

Criado em 1961 com 625 mil hectares, o parque foi reduzido a 171 mil hectares em 1971. Só em 2017 voltou a crescer, chegando a cerca de 240 mil hectares. Hoje abriga populações de 17 espécies da flora e 32 da fauna ameaçadas de extinção — lobo-guará, tamanduá-bandeira, onça-pintada, o pato-mergulhão.

"A criação e a consolidação de unidades de conservação são uma estratégia importante para a manutenção da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos, como regulação climática e recarga hídrica", resume Ane Alencar, diretora de ciência do IPAM.

Para o visitante, a consequência prática é simples e pouco confortável: no Cerrado, o ecoturismo não é um bônus sobre a conservação, é parte do argumento que a sustenta. Uma unidade com visitação organizada, receita de ingresso, concessão auditada e cadeia local de guias e pousadas tem defesa orçamentária e política que uma unidade vazia não tem. Trilha aberta é vigilância. Pousada com dono na cidade vizinha é fiscal informal.

Isso não transforma qualquer viagem em ato de conservação — turismo mal planejado degrada, e vereda pisoteada não volta. Mas o mapa das UCs do Cerrado que resistiram melhor nas últimas décadas se sobrepõe, com incômoda regularidade, ao mapa das que têm gente entrando pela portaria.

O número de junho da Amazônia merece a comemoração que recebeu. O de 481,53 km² no Cerrado merece o mesmo microfone.

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RP
Redação Planeta Ecoturismo

Planeta Ecoturismo — jornalismo de ecoturismo e sustentabilidade, com curadoria e revisão humana.

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