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Três países olhando para o mesmo céu: o Big Day das Araras-Azuis e o poder da ciência cidadã

A 2ª edição do Big Day das Araras-Azuis mobilizou observadores em três países para contar a espécie. Entenda como a ciência cidadã ajuda a conservação.

RPRedação Planeta Ecoturismo03 de agosto de 2026 · 5 min de leitura
Três países olhando para o mesmo céu: o Big Day das Araras-Azuis e o poder da ciência cidadã

Terminou no domingo (2) a segunda edição do Big Day das Araras-Azuis, uma mobilização internacional que reuniu observadores de aves no Brasil, na Bolívia e no Paraguai com um objetivo específico e ambicioso: registrar, ao mesmo tempo e em toda a área de ocorrência, a presença da arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus) na natureza.

A iniciativa é do Instituto Arara Azul, organização sediada em Campo Grande (MS) que atua no Pantanal Norte, no Pantanal Sul, no Cerrado e na Amazônia paraense, sob a liderança da pesquisadora Neiva Guedes. A proposta é simples de enunciar e complexa de executar: usar ciência cidadã para ampliar o conhecimento sobre a distribuição e o número de indivíduos de uma espécie que segue classificada como vulnerável à extinção.

Por que contar aves num fim de semana específico

O formato foi inspirado no Big Day, evento global de observação de aves em que observadores vão a campo para registrar o maior número possível de espécies em um período delimitado. O Instituto adaptou o modelo para uma espécie só — e a escolha da concentração no tempo não é detalhe de logística.

Quando os registros se espalham ao longo de meses, um mesmo bando pode ser contado várias vezes em locais diferentes, inflando o número. Ao concentrar as observações num intervalo curto e simultâneo em três países, reduz-se drasticamente esse risco de dupla contagem e obtém-se algo mais próximo de uma fotografia da distribuição da espécie num dado momento.

É o mesmo princípio por trás dos censos simultâneos de aves aquáticas e das contagens de baleias em janelas fechadas de tempo: o valor do dado está tanto na quantidade quanto na sincronia.

A escala do esforço

A primeira edição, realizada em 16 e 17 de agosto de 2025, deu a medida do que a mobilização consegue produzir: segundo o balanço divulgado, foram 1.275 avistamentos registrados em dois dias.

Para dimensionar o que isso significa, vale lembrar como funciona o levantamento tradicional. Monitorar aves em áreas como o Pantanal exige equipes em campo, deslocamento por estradas de terra e rios, e custos elevados por quilômetro percorrido. Nenhum instituto de pesquisa no mundo tem orçamento para cobrir simultaneamente uma área que se estende por três países.

O que a ciência cidadã faz é inverter a lógica: em vez de levar o pesquisador até a área, aproveita-se que já existem pessoas em toda a área — moradores de fazendas, guias de turismo, pousadeiros, ribeirinhos, observadores amadores, viajantes. Cada um cobre um ponto minúsculo. Somados, cobrem o que nenhuma expedição cobriria.

Como qualquer pessoa participa

A regra de entrada é deliberadamente baixa. Não é preciso ser biólogo, ornitólogo ou profissional da área. Segundo a própria convocação do Instituto, quem tem olhos para observar já tem o essencial.

O protocolo pedido aos participantes é enxuto:

  1. Observar em ambientes naturais, rurais ou até urbanos onde as araras costumam aparecer.
  2. Registrar local, data, horário e número de indivíduos avistados — e, quando possível, fazer foto ou vídeo.
  3. Enviar o registro pelos canais oficiais do Instituto, que incluem o aplicativo eBird e o contato direto por WhatsApp.

Todos os dados recebidos são organizados e analisados pela equipe técnica do Instituto, com apoio de biólogos e cientistas parceiros, alimentando um banco de dados voltado ao mapeamento populacional, ao monitoramento das áreas de ocorrência e ao apoio a projetos de conservação.

Houve ainda participação de regiões fora da área de distribuição atual da espécie: no Ceará, onde não há araras-azuis-grandes em vida livre, a data foi marcada por atividades de educação ambiental — um lembrete de que a mobilização tem também um componente de formação de público.

O que ameaça a arara-azul-grande

A espécie é protegida por leis e por projetos de conservação de longa data, mas segue enfrentando pressões concretas.

Tráfico de animais silvestres. Araras de grande porte e plumagem vistosa continuam entre os alvos preferenciais do comércio ilegal, com retirada de filhotes dos ninhos.

Perda de habitat. A arara-azul-grande depende de árvores específicas de grande porte para nidificar — no Pantanal, sobretudo o manduvi. Árvores com cavidades adequadas levam décadas para se formar. Quando uma dessas árvores cai, a substituição natural não acontece em prazo humano.

Fogo. Os grandes incêndios que atingiram o Pantanal nos últimos anos afetaram justamente esse tipo de árvore madura, com efeito prolongado sobre os locais de reprodução.

Fragmentação. A conversão de áreas nativas reduz a conectividade entre populações e limita o fluxo genético.

É esse conjunto que torna o dado de distribuição tão valioso. Saber onde a espécie ainda está — e onde deixou de estar — é o que permite priorizar áreas para instalação de ninhos artificiais, fiscalização e acordos com proprietários rurais.

Ecoturismo como aliado, não como plateia

Há uma lição para quem viaja embutida nessa mobilização.

O observador de aves que passa uma semana numa pousada do Pantanal, do Cerrado ou da Amazônia produz, sem esforço adicional, exatamente o tipo de informação que falta aos pesquisadores: presença, ausência, horário, comportamento, local georreferenciado. A diferença entre esse registro virar dado científico ou morrer na galeria do celular é apenas o hábito de anotar e enviar.

Plataformas como o eBird e, no Brasil, o WikiAves, existem justamente para receber esse fluxo. Cada lista enviada entra em bancos consultados por pesquisadores do mundo inteiro.

É a forma mais direta de transformar turismo de natureza em conservação de fato — não como discurso de folheto, mas como contribuição verificável. Quem viaja com binóculo já está com metade do trabalho feito.

O que vem depois da contagem

Os números consolidados da segunda edição devem ser divulgados após a organização e a análise dos registros pela equipe técnica. Serão comparados com os da edição anterior, e é dessa comparação, repetida ano após ano, que nasce o que realmente importa: a série histórica.

Uma contagem isolada diz pouco. Dez contagens anuais no mesmo formato dizem se uma população está estável, crescendo ou encolhendo — e essa é a informação que sustenta política de conservação.

Por isso, mais importante do que o total de 2026 é o fato de a iniciativa ter chegado à segunda edição. Continuidade, em monitoramento de fauna, vale mais do que qualquer recorde pontual.

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RP
Redação Planeta Ecoturismo

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