Preços sobem com força em agosto e lançam dúvidas sobre decisão do BC de reduzir a taxa básica de juros

Variação do IPCA acumula 7,23% em 12 meses e índice deve continuar sofrendo pressão de alimentos

PEDRO SOARES
DO RIO

A inflação voltou a subir com força em agosto, lançando dúvidas sobre a estratégia usada pelo Banco Central para segurar os preços e atenuar o impacto da crise externa sobre a economia brasileira.
O IPCA, principal índice de preços do país, subiu 0,37% em agosto e acumulou variação de 7,23% nos últimos 12 meses, a maior registrada pelo índice desde junho de 2005.
O BC acredita que os preços devem subir num passo mais moderado daqui até o fim do ano, o que contribuirá para reduzir a taxa anual.
Mesmo assim, alguns economistas preveem que o IPCA irá superar o teto da meta fixada pelo governo para a inflação deste ano, que é 6,5%.
Na semana passada, o BC surpreendeu a maioria dos analistas ao reduzir a taxa básica de juros, interrompendo a série de aumentos sucessivos que iniciara em janeiro para controlar a inflação.
Ao justificar a medida, o BC afirmou que a crise nos países avançados ameaça arrastar o resto do mundo e por isso achou melhor baixar os juros para evitar que a economia brasileira esfrie demais.
Muitos economistas acharam a decisão do BC precipitada e temem que a inflação volte a subir como resultado da medida e supere a meta.
O principal fator que contribuiu para o salto do IPCA em agosto foi uma nova rodada de alta dos preços dos alimentos, causada pela valorização de produtos como milho e soja no mercado internacional, problemas climáticos e aumentos nos custos de produção dos agricultores.
Os preços dos alimentos continuam subindo no atacado e novos reajustes devem chegar às prateleiras dos supermercados nos próximos meses. A inflação só não foi maior em agosto porque preços de automóveis, gasolina e passagens aéreas caíram.
“É bastante improvável o cumprimento da meta [neste ano]”, disse o economista Thiago Curado, da consultoria Tendências, que prevê um IPCA de 6,6% para este ano.

CATÁSTROFE
Se o teto da meta for ultrapassado, o Banco Central terá de explicar o que ocorreu numa carta aberta endereçada ao ministro da Fazenda.
A aposta do BC é que a crise externa e a desaceleração da atividade econômica no país serão fortes o suficiente para esfriar a economia e controlar os preços, sem a necessidade de juros maiores.
O economista Luiz Roberto Cunha, da PUC do Rio, não vê no cenário internacional a possibilidade de uma “catástrofe” capaz de confirmar o pessimismo do BC e acredita que ele está mais preocupado em evitar que a economia brasileira esfrie demais do que em segurar a inflação.
“Há uma meta implícita de crescimento do PIB, que leva o Banco Central a aceitar uma inflação maior, entre 5,5% e 6% ao ano”, afirmou Cunha.
Júlia Braga, do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), órgão ligado à Presidência da República, afirmou que a alta provocada pelos preços dos alimentos em agosto é “pontual” e a inflação ficará abaixo do teto da meta oficial neste ano.

 

Fonte: Folha de São PAulo