O Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos pediu nesta sexta-feira uma investigação sobre as circunstâncias da morte do ex-ditador líbio Muammar Gaddafi, anunciada ontem pelas forças rebeldes do país, durante operação militar em Sirte.

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“A respeito da morte de Gaddafi ontem, as circunstâncias ainda não são claras. Nós consideramos que é necessária uma investigação”, declarou o porta-voz, Rupert Colville, em referência aos vídeos que foram divulgados pelos meios de comunicação.

“Deveria haver algum tipo de investigação, dado o que vimos ontem, acho que é muito essencial”, disse ele, em referência às imagens divulgadas da captura de Gaddafi, nas quais ele ainda aparecia com vida.

 

Reprodução da emissora de TV Al Jazeera, com sede no Qatar, mostra ex-ditador Muammar Gaddafi morto

Reprodução da emissora de TV Al Jazeera, com sede no Qatar, mostra ex-ditador Muammar Gaddafi morto

 

Embora inicialmente não houvesse uma versão oficial, um vídeo que mostra o ex-ditador capturado ainda vivo transmitido por emissoras árabes gerou suspeitas de que ele tivesse sido executado pelos rebeldes. O premiê da Líbia, Mahmoud Jibril, disse que relatórios de perícia mostram que a causa da morte foi um tiro recebido durante um tiroteio.

“Gaddafi foi retirado de dentro de uma tubulação de esgoto e não mostrou resistência alguma. Quando começamos a movê-lo ele foi atingido por um tiro no braço direito e quando o colocamos numa picape ele ainda não tinha nenhum outro ferimento”, disse o premiê citando o relatório.

Um médico que examinou o corpo, porém, afirmou que ele foi fatalmente ferido por uma bala em seus intestinos depois de ser capturado. “Gaddafi foi capturado vivo, mas morreu depois. Houve uma bala e essa foi a causa primária de sua morte; ela penetrou em suas entranhas”, afirmou o Ibrahim Tika à emissora árabe de TV Al Arabiya. “E houve uma outra bala na cabeça, que entrou e saiu”.

Segundo o porta-voz da ONU, as circunstâncias da morte do ex-ditador estão “muito pouco claras” porque há “quatro ou cinco versões diferentes de como ele morreu”. Colville pediu mais detalhes para determinar se houve uma execução por parte dos rebeldes ou se foi durante troca de tiros.

O funcionário do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos lembrou ainda que o Conselho de Direitos Humanos da ONU já havia designado meses atrás uma comissão para investigar as violações de direitos cometidas na Líbia pelos dois lados do conflito.

Colville chamou ainda as novas autoridades líbias e a quem puder ajudar que “contribuam para tranquilizar a situação no país”, tendo em vista que “há gente demais que está armada na Líbia e que a situação está muito desordenada”.

Segundo ele, porém, a queda do regime e das últimas cidades que permaneciam fiéis a ele coloca o fim a oito meses de sofrimento e violência extrema. “Começa uma nova era que deve responder às aspirações do povo por democracia e direitos humanos”, afirmou.

SAÍDA DA OTAN

O presidente francês, Nicolas Sarkozy, disse que a morte do ditador deposto da Líbia, Muammar Gaddafi, significa que a intervenção militar da Otan, a aliança militar do Ocidente, no país norte-africano está próxima do fim.

Sarkozy pediu também ao povo líbio que adote o “perdão, a reconciliação e a unidade”, após a morte do ex-ditador.

“Não devemos nunca celebrar a morte de um homem, independente do que tenha feito”, declarou Sarkozy, antes de completar que a operação da Otan na Líbia “chega ao fim”.

Mais cedo na sexta-feira o ministro francês de Relações Exteriores, Alain Juppé, disse à rádio Europe 1 que a intervenção militar da Otan estava encerrada, mas acrescentou que a França iria auxiliar as autoridades interinas da Líbia na transição para um governo democrático.

“Acredito que podemos dizer que a operação militar terminou, que todo o território líbio está sob controle do CNT (Conselho Nacional de Transição) e que, sob a reserva de algumas medidas transitória na próxima semana, a operação da Otan chegou ao fim”, disse.

“A operação deve terminar hoje porque o objetivo, acompanhar as forças do CNT na libertação do território, foi alcançado”, completou. “Nosso objetivo não era matar Gaddafi. Nosso objetivo era forçá-lo a abandonar o poder”.

Os países membros da aliança se reúnem hoje em sua sede em Bruxelas para debater o fim da missão na Líbia, informou uma fonte diplomática, um dia depois da morte de Gaddafi.

MANDATO DA ONU

Embora tenham reiterado que a meta no país não era a captura do ditador, algo que não estava incluso nas resoluções das Nações Unidas que aprovaram a missão da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), as potências ocidentais deixaram transparecer nos últimos meses que persistiriam até que o país estivesse totalmente livre do ex-ditador.

“A Otan e seus parceiros concluíram com êxito o mandato histórico confiado pelas Nações Unidas para proteger o povo líbio. Nós terminaremos nossa missão em coordenação com as Nações Unidas e com o Conselho Nacional de Transição”, disse o secretário-geral da aliança atlântica, Anders Fogh Rasmussen.

Na mesma linha, o presidente dos EUA, Barack Obama, disse mais cedo que com a morte de Gaddafi a Líbia está “totalmente livre” e a missão da Otan “atingiu seus objetivos e deve logo chegar ao seu fim”.

Vários países, incluindo os Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) criticaram a aliança atlântica e as potências por terem extrapolado os limites dos mandatos da ONU durante a ação na Líbia e mostram hesitação quanto a medidas semelhantes em países como a Síria, onde a repressão do ditador Bashar Assad aos protestos já teria deixado mais de 3.300 mortos, segundo a ONU.

 

Fonte: Folha