Considerada a área protegida mais biodiversa do mundo, ela convive com crescimento do turismo e o fantasma de uma hidrelétrica

 

Cinco anos depois do Estado boliviano declarar que 12 regiões localizadas ao noroeste de La Paz seriam reconhecidas como áreas de proteção ambiental, criando o Parque Nacional Madidi, a revista estadunidense National Geographic publicou uma extensa reportagem – que estampou sua capa de março de 2000 – dizendo que ali existia uma das zonas com maior biodiversidade do planeta.

 

A matéria fez com que o parque, então desconhecido mesmo entre boa parte dos bolivianos, se tornasse um dos principais destinos ecoturísticos do mundo. Até aquela época, poucas agências turísticas atuavam na região e, ainda assim, elas se concentravam em outras atividades, como trabalho com indígenas.

 

O Madidi, antes de ter esse nome, no entanto, já era famoso mundialmente por uma história que encantou o mundo no começo dos anos 1980: o ex-oficial do exército israelense Yossi Ghinsberg resolveu explorar a mata boliviana com outros amigos em 1981, mas se perdeu deles e permaneceu três semanas isolado dentro da floresta comendo macacos e frutas silvestres. Ele seria resgatado por indígenas da comunidade de San José de Uchupiamonas no terceiro dia de buscas e quando o caso já tinha chegado aos jornais internacionais.

 

Em 1993, ele publicou o livro Back from Tuichi contando a história – um ano depois de ter dado impulso ao projeto Chalalán, que já atuava na proteção da mata e dos indígenas locais e que é tocado pelos próprios nativos de Uchupiamonas. A obra vendeu milhares de cópias em Israel e em outros países, além de dar fama mundial a Ghinsberg, que neste ano será representado pelo autor britânico Daniel Radcliffe no filme Jungle, baseado no livro.

 

Segundo estudos do governo boliviano, o Madidi já está entre os quatro destinos turísticos mais visitados pelos turistas estrangeiros, ao lado do Salar de Uyuni, do Lago Titicaca, na fronteira com o Peru, e do novo roteiro turístico pelas missões jesuíticas, em Santa Cruz de la Sierra. “Isso favorece a própria cidade de La Paz, que vai se tornando um destino turístico por excelência”, pontuou o ex-ministro do Turismo, Marlo Machicao. Nos últimos anos, as passagens aéreas para a capital boliviana tiveram quedas significativas de preços partindo de outras metrópoles sul-americanas.

 

O parque

Segundo diversas organizações internacionais, o Madidi é uma das reservas ambientais mais complexas do mundo, por reunir quase 2 mil espécies de plantas, 900 de peixes, 150 de mamíferos, 70 de répteis, 190 de peixes e 80 de anfíbios. Essa pluralidade natural é possível também por causa da diversidade climática: no mesmo parque existem zonas frias, próximas à cordilheira, e áreas de clima quente. “Os pisos ecológicos vão desde neves perpétuas até uma planície amazônica, todos eles abrigando etnias comunitárias”, dizem relatórios escritos pelos pesquisadores Leonardo Fleck e Alfonso Malky.

 

Em 2012, a Wildlife Conservation Society (WCS) publicou um estudo afirmando que 11% das espécies de pássaros do mundo vivem no parque. Neste ano, a mesma organização divulgou outra pesquisa afirmando que o Madidi é a área protegida com o maior número de tipos de borboletas do mundo, com cerca de 1.500 espécies.

 

Ainda em 2017 cientistas de diversas partes do mundo esperam conseguir o reconhecimento de 20 novas espécies de vertebrados e de 62 plantas encontradas na região. Apesar das diferenças de números, alguns institutos dizem que é possível existir até 120 mil espécies diferentes de insetos dentro do parque.

 

“Quando o parque foi reconhecido se dizia que era a região com mais biodiversidade do mundo, e acho que essas descobertas estão confirmando isso”, conta o pesquisador Robert Wallace, do projeto Identidad Madidi, do governo da Bolívia em parceria com a WCS. “Essa é a área mais rica do planeta”, completa Yossi Ghinsberg, que também atua na região, apesar de viver em Tel Aviv.

 

Por sua grandiosidade territorial, existem diversos roteiros turísticos possíveis no Madidi. Um deles, organizado pela agência Berraco del Madidi, oferece estadia de até quatro dias em um acampamento temático no parque com atividades guiadas de pesca, exploração, estudos de plantas medicinais, rafting e visitas a comunidades indígenas locais, como a de San José de Uchupiamonas, onde os cerca de 300 locais ainda falam o idioma quéchua.

 

Outra agência, a Madidi Jungle, também oferece atividades como observação de pássaros, trilhas noturnas e excursões pelos rios Beni e Tuichi – tudo se hospedando em casas de madeira dentro da mata. Os pacotes da agência oferecem refeições em restaurantes e banheiros para os turistas. Todas as excursões pelo parque saem da cidade de Rurrenabaque, na divisa entre as províncias de Beni e La Paz.

 

A cidade, no entanto, enfrenta problemas financeiros desde que o Estado boliviano declarou Israel como um país “terrorista”, passando a exigir vistos de todos os israelenses que entram no território nacional. Por causa de Back from Tuichi, de Yossi Ghinsberg, 70% das pessoas que chegavam ao município isolado no meio da mata de La Paz eram seus conterrâneos curiosos em conhecer a mata onde ele se perdeu nos anos 1980. Em 2015, 18 mil pessoas passaram por Rurrenabaque ante os 22 mil que lá estiveram no ano anterior – uma queda de 22% no movimento. “O próprio presidente Evo Morales expressou sua preocupação e disposição em ajudar”, disse o governador do departamento de Beni, Álex Ferrier.

 

Hidrelétrica

Neste ano, o Parque Nacional Madidi voltou a chamar a atenção do mundo por causa do plano do Estado boliviano de construir uma grande hidrelétrica no rio Beni, próxima a Rurrenabaque, na região conhecida como San Miguel del Bala. Mesmo com manifestações contrárias dentro do país e no exterior, o ministro de Energias do país, Rafael Alarcón, afirmou que a construção irá acontecer nos próximos anos, meses depois de afirmar que tudo não passava de “estudos” prévios para saber se havia viabilidade no projeto.

 

O plano prevê uma parceria entre o governo da Bolívia e a empresa italiana Geodata que, juntos, gastariam US$ 6,3 milhões para produzir energia suficiente não apenas ao consumo dos departamentos de La Paz, mas também para exportar ao Brasil, um dos principais parceiros econômicos do país.

 

Na Bolívia, a ideia gerou conflitos entre os setores indígenas e o Estado, revivendo um duelo que marcou a história recente do país. Em dezembro do ano passado, nativos de 17 comunidades que vivem dentro do parque promoveram uma grande manifestação nas margens do Rio Beni, em Rurrenabaque, exigindo a retirada das máquinas e dos pesquisadores da Geodata dos locais onde os estudos estavam sendo realizados. “Inundar a região será como deixar La Paz e El Alto embaixo d’água”, afirmou um dos indígenas.

 

A imprensa e a sociedade civil boliviana também parecem alinhadas com relação ao projeto da hidrelétrica – chamada no país de “El Bala”. No mês passado, o renomado fotógrafo Sérgio Ballivián, que trabalhou na revista estadunidense National Geographic, lançou o livro Madidi: un futuro incierto, em que alerta para a necessidade de preservar a região pelo bem do clima mundial.

 

“Nos últimos anos aconteceram muitas transformações, porque as pessoas estão conhecendo melhor o Parque Madidi. Ao mesmo tempo, muitas empresas estão chegando aqui para explorar ouro, cortar árvores, abrir caminhos e cavar represas. Ainda que a hidrelétrica não esteja dentro do parque, ela vai afetar toda a parte sul dele”, afirmou ao jornal boliviano Pagina Siete.

As agências de turismo e os movimentos ambientais, obviamente, também criticaram a proposta. Caso a hidrelétrica seja construída, a previsão é que a cidade de Rurrenabaque seja completamente inundada, deixando o caminho para as entradas do parque mais difíceis. “Nesse cenário, o turismo é fundamental para que mais pessoas vejam a importância que o Madidi tem”, finaliza Wallace.

 

 

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